Este blog, sob responsabilidade de Alexandre de Melo Andrade, objetiva o contato com obras e teorias literárias, publicadas e inéditas, permitindo o diálogo entre os estudiosos desta arte e o acesso a estudos diversos abarcados por este universo.
(Mikel Dufrenne)
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
domingo, 13 de dezembro de 2009
domingo, 6 de dezembro de 2009
Sem título
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009
GUARDAR
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,
isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda um vôo de um pássaro
do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
HELENA
No cômodo onde Menelau vivera
Bateram. Nada. Helena estava morta.
A última aia a entrar fechou a porta,
Levavam linho, ungüento, âmbar e cera.
Noventa e sete anos. Suas pernas
Eram dois secos galhos recurvados.
Seus seios até o umbigo desdobrados
Cobriam-lhe três hérnias bem externas.
Na boca sem um dente os lábios frouxos
Murchavam, ralo pêlo lhe cobria
O sexo que de perto parecia
Um pergaminho antigo de tons roxos.
Maquiaram-lhe as pálpebras vincadas,
Compuseram seus ossos quebradiços,
Deram-lhe à boca uns rubores postiços,
Envolveram-na em faixas perfumadas.
Então chamas onívoras tragaram
A carne que cindiu tantas vontades.
Quando sua sombra idosa entrou no Hades
As sombras dos heróis todas choraram.
VIDÊNCIA
Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!
Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa
Maciça de aqui estar. Flor, nuvem, muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro
Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que pára o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
http://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL3Art1.pdf
Alexandre de Melo Andrade.
“Meu ódio queima;
Meu coração destrói;
Minha calma tudo mata;
Que maldição é esta que me aflige
Se nada ao mundo eu disse?
“Entre negras pradarias
Permeadas de vontades vazias
Sinto que nada mais grita.
Tudo cessou, tudo acabou.
Nada mais aqui restou...
“Meu destino está perdido
Lancei-me ao Vazio,
Sem esperança, sem vida.
Mia alma grita
Mas ninguém a ampara...
“A desgraça me aflige,
E, jogado no Estige,
Peço aos mortos
Que se unam a meu coro
E que amaldiçoem estes reinos!”
(Conde Darkheart)
sábado, 10 de outubro de 2009
O Caráter Fantástico em Harry Potter and the Sorcerer's Stone
Fronteiras entre Arcadismo e Romantismo na poesia de Almeida Garrett
As obras românticas de Almeida Garret são conhecidas pela “renovação” que promoveram na literatura portuguesa. Porém o autor possui base clássica e nunca se desvencilhou totalmente de sua racionalidade e de aspectos da lírica tradicional. Muitos pesquisadores não reconhecem tais características; no entanto, Massaud Moisés, estudioso, pesquisador e difusor da literatura por excelência, ao defender o estado onírico como preponderante no Romantismo, afasta o poeta português de uma relação direta com os temas da escola romântica, filiando sua lírica a um racionalismo clássico. A seguinte pesquisa, portanto, vem mostrar que Almeida Garret, em suas obras poéticas, não possui o estado onírico no grau em que seria pertinente ao Romantismo. O resultado será de enorme relevância para os estudos literários, pois muda a concepção criada em torno do poeta.
domingo, 4 de outubro de 2009
Todo poeta acredita nos sonhos;
Achando que podem realizá-los;
Eu também acredito nos sonhos;
Mas jamais quererei realizá-los.
Pois quando os tornamos tão reais
Deixam assim de sê-los dos sonhos;
Passando a ser uma parte mais
De sua realidade em banhos.
Então, sonhos têm que ser dos sonhos;
A realidade da realidade;
Nós tanto dessa quanto daquela.
Viver assim entre as duas faz
Com que nós não morramos buscando
A realidadescontenta, ou sonhos.
(Michael Bonadio)
terça-feira, 29 de setembro de 2009

Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabando ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a idéia
de usar as minhocas
numa pescaria
para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.
Onde será que foi parar?
Não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.
(José Paulo Paes)
A felicidade se fez ausente.
Resta a tristeza a este demente.
As flores no jardim estão a murchar.
Minha amada, delas não estás a cuidar.
Acendo um cigarro para aliviar a solidão.
Pouco adianta, é grande a dor no coração.
Anjos, não era este o momento de a levar.
Minha amada, contigo quero estar.
Todas as noites em meus sonhos tu estás.
E nele o seu lindo rosto posso tocar...
Minha amada, continue a me esperar.
E os dias passam lentamente.
Os pássaros tristes nas árvores estão a cantar.
Minha amada, por toda vida vou te amar.
(Edilson dos Resis)
SOLIDÃO
Na vida não fui poeta
simplesmente um sonhador,
que vivenciou toda dor
causada pela perda
de um grande amor.
Se hoje os meus olhos
inundados por lágrimas estão,
é que magoado se fez
o pobre coração,
entre tanta ilusão.
Sem que me cuidasse,
deixei que os meus sonhos
de amor um anjo levasse;
e quando fui perceber
estava sem motivos para viver.
Aquelas lindas maçãs
vermelhas como as rosas
que um dia beijei,
hoje sei que jamais as verei
e em seus seios não mais repousarei.
Hose a solidão se fez!
Uma vida errante...
Não me tornei amante;
e sempre fiquei a acreditar
que um dia fosses me amar.
(Edilson dos Reis)
“Perante estas eras sombrias,
Açoitadas por ventanias;
Terrível, sombrio, maldito,
É aquele que agora invoco!
“Meu coração palpitante,
Num sofrimento gritante,
Urra um nome sombrio,
De tom maldito, horrível,
Que em vão tento esquecer...
“Tua face me recorda
De tempos há muito perdidos,
Que, no Limbo esquecidos,
Aplacam meu sofrimento...
“Um som agourento
Recorda-me do terror
E uma vez mais sinto a dor
Neste corpo funesto,
Nesta face que detesto!
“Ah, se o ódio aplacasse,
E essa dor findasse,
Num simples enlace,
Arrancaria minh’alma!
“Mas ainda assim sofro,
E pelo Inferno corro,
Desesperado...
“E aqui me encontro,
Tão desolado, abandonado!
E ainda sinto a dor, o terror!
“PÁRA DE ME FAZER SOFRER!
EU SÓ DESEJO MORRER!
“Mias falanges rangem
Teu retrato apagado
Pelo Tempo açoitado
De modo tão irado...
“Tua face me recorda
Daquilo que em mim mora
Sem nunca morrer...
“Mas meu corpo recusa,
E minha alma acusa
De que era em vão...
“Passo a detestar
E a tudo odiar,
Para que uma vez mais
Possa descansar...
“Mas minha mente recusa,
E novamente de mim abusa,
Pois me volta a lembrar...
“Como era doce teu toque,
Que em minha pele agora morre,
Em puro desespero...
“Sonho uma vez mais contigo,
Aqui, neste frio jazigo,
Em meio à podridão...
“Rasgo-me novamente
E ao longe eu lanço
Num maldito balanço
Meu coração dormente!
“Eu quero apenas parar de sofrer!
E seu amor eu hei de esquecer!
Maldita traidora!
Maldita! Maldita!
Que apodreças em sua pose
De doce senhorita!
Pois ainda é apenas carne!
“Te odeio! Te detesto!
E por isso ao Abismo peço
PARA QUE MORRAS SOFRENDO NO INFERNO”
(Conde Darkheart)
sábado, 19 de setembro de 2009
Ajuda-me a não me ser.
Ajuda-me a não te ser.
Ajuda-me a não lhe ser.
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
Ajuda-me a parar de ver.
Ajuda-me a querer ter.
Ajuda-me a poder fazer.
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
Ajuda-me a não me desesperar
Quando na noite não puder falar,
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
Ajuda-me a saber entender
O porquê de querer me socorrer.
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
(Michael Bonadio)
(Michael Bonadio)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Não me reconheço.
Não sou o mesmo.
Antes era um,
Agora outro.
Quem sou?
Não sei.
Tudo mudou.
Um calmo, esperançoso,
Simples,
Mas, ignorante, egoísta,
Buscava o topo dos sonhos.
Não sei o que aconteceu.
Será que foram as Letras,
O excesso de tudo?
O mundo novo?
Talvez foi a sensação?
Não entendo.
Perguntas? Respostas?
Procuro e não acho.
Mas, agora o outro atual
Elegante, pensante
Amante e diferente.
Busca um porquê.
No sei do quê.
Para quê?
Sente o vazio
E o completo.
O que acontece?
Especialistas também não entendem.
A dupla personalidade:
Uma humana animal
A outra humana racional.
Assim, como o meu vazio completo
São meus versos
Podem dizer o tudo ou o nada.
Assim é minha poesia
Complexa,
Simples.
Quem entende?
Sei lá.
(Alex Moretto)
sábado, 29 de agosto de 2009
Quando não quero enxergar o mundo,
tiro os óculos.
Caos.
Névoas, profusões de névoas turvam a visão...
A eterna tristeza está no recolocar os óculos:
mesmo querendo ver às claras,
as imagens distorcem,
são neblinas da visão...
À TOA
Pensando um verso bonito
não encontrei palavras.
Guardei o pensamento.
O pensar adormeceu.
As palavras adormeceram.
O verso ficou para depois.
E depois... é o indeterminado...
EMPÓRIO
As prateleiras vazias,
poeirentas, encardidas
têm resquícios de passado.
Não há arejar de sol nas tábuas
e as traças tracejam
traços no tempo.
As prateleiras (fantasmas)
apodrecem.
Os sonhos, o murmurar da vida
diluíram-se no pó.
Sobre as prateleiras inertes
minha sombra inútil varre
a sujeira das teias
trançadas no labirinto do tempo.
Poeira secular.
Nas prateleiras vazias
Minha alma dorme...
CRONOS
Dá-me um dia
para organizar
atos desatados.
Um dia só basta
para conversar
com o pensamento enlouquecido.
Um dia é o justo tempo
para falar de amor.
E nesse dia,
do nascer do sol
ao despertar das estrelas,
haverá um consenso de idéias
sábias e loucas, revelando-me.
Por um dia
é, foi, será
válido viver...
DESABAFO
A palavra rasga a alma.
Como lâmina cortante
Retalha o coração
E sangra.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
sem título
e o que se vê
centraliza todo
o espaço,
persiste,
sem moldura
ou título,
cravado em seu
axioma de ferro,
seu habitat supremo,
desqualificando tudo
com exata indiferença,
como um
prego na parede
detalhe
acontece que
ao perder o chão
passou a
observar os
pés e talvez
de tal modo
acercar-se da
minúcia
excedente
que melhor
se reconhece
no que cumpre
desaparecer
pormenor
se diante do desacerto
decidiu-se pelo óbvio,
talvez não tenha visto
o que à primeira vista
não se vê
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Um estranho amor,
assim como chegou se foi,
levou meus segredos tão discretos,
meu olhar de plenitude, meus sonhos,
meus mistérios que só com ele dividia.
Nada disso significou tédio ou fim do tesão,
de um sobressalto se começa a amar de novo
de outro jeito, com outro sentir.
Viver bem os amores que cruzam nossas vidas
é um ato de heroísmo.
Amar é como depois de uma caminhada árdua
ser docemente surpreendido pela descoberta do outro,
e ter o amor como medida, sempre!
mmadalena
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
ARESTA
Que estranho
nós dois
sempre na aresta
do ontem, na certeza do ontem
na aresta
do amanhã, na possibilidade do amanhã.
No hoje não!
POESIA
Poesia é a gota que
cai
da consciência trans
bordante.
DRUMMONDIANDO
É sempre no meu sexo
aquele incesto
Sempre no meu gim
aquele fim
Sempre no meu muro
aquele orgulho
Sempre no meu sempre
aquele nunca.
(Alexandre de Melo Andrade)
quinta-feira, 30 de julho de 2009
O SOL EXISTE
sábado, 4 de julho de 2009

A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo. (1983, p. 10-11)
Nada há mais na vida do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer outra vez. (p. 43)
A evidência da vida não é a imediata realidade mas o que a transcende e estremece na memória. (p. 117)
O reino da vida está cheio ainda do rasto dos deuses, como num país velho perdura a memória dos senhores antigos e expulsos. Mas o homem nasceu - nasceu agora da sua própria miséria e eu sonho com o dia em que a vida fique cheia do seu rasto de homem, tão certo e evidente e tranquilo como a luz da tarde de um dia quente de Junho... (p. 181)
Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita. (p. 247)
[...] a vida do homem é cada instante - eternidade onde tudo se reabsorve, que não cresce nem envelhece -, centro de irradiação para o sem-fim de outrora e de amanhã. O tempo não passa por mim: é de mim que ele parte, sou eu sendo, vibrando. (p. 250)
sábado, 27 de junho de 2009
Alexandre.
quinta-feira, 18 de junho de 2009

DESILUSÃO
Oh! dama da noite
com o sorriso angelical;
seria um sonho
toda paixão
que um dia senti?
Em minha existência
amei...
acreditei...
chorei...
sofri...
Partiste deixando-me na solidão
hoje minha alma chora
com o vazio que
deixaste em meu coração.
AMOR
És tu o sentimento
mais lindo
entre os mortais.
Muitos sábios
tentaram desvendá-lo;
alguns por senti-lo
vieram a se matar.
Espero que um dia
em minha vida
eu possa encontrá-lo.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
"Alma que entre as pedras corre,
Carne que a lua abençoa,
Mia sombra nos céus escreve
Entre nuvens de escuro cerne
Coisas que olhos nâo podem ver...
"Como algo assim acontece
Se a mente não padece
Antes do corpo apodrecer?
Fico aqui pensando
E entre os cadáveres sonhando
Com um novo amanhecer...
"Ah, se o céu pudesse padecer...
Pela primeira ver iria sofrer
O que os apaixonados sentem,
Quando tem em sua mente
O suave brilhar cadente
De um morto amanhecer...
"Ah meu caro, por que pensar?
Deixa a realidade,
Venha ao meu lado sonhar!
Esqueça essa frivolidade
Que é a realidade!
Pois não existe beleza mais pura
Do que aquela encontrada
Num leito de sepultura..."
sábado, 30 de maio de 2009
Mãos
Mãos trêmulas, in seguras
Mãos pequenas de um amor
Mãos suaves, macias
Mãos de mãe
Mãos que socorrem e são socorridas
Mãos que preparam o alimento
Mãos que gritam socorro
Mãos que seguram a queda
Mãos que acalentam e acariciam
Mãos que pedem carinho
Mãos que se amam e se perdem
Mãos que se conectam com o mundo
Mãos que escrevem, que rabiscam coisas certas e corajosas
Mãos que se surpreendem
Mãos que escovam a boca da imundície do mundo
Mãos que seguram sujeira
Mãos que estão imundas
Mãos que são imaculadas
Mãos cansadas de tanto sofrer
Mãos que abrigam e que espancam
Mãos que não têm nada a dizer
Mãos que caminham sem pressa
Mãos que limitam o tempo e mãos que não tem pressa do tempo passar
Mãos belas e frias
Mãos frias e belas
Mãos que se despedem
Mãos que sofrem com a despedida
Mãos que já não sabem viver
Mãos que se perdem e
Mãos que se encontram
Mãos que estremecem
Mãos que se desanimam antes mesmo de tentar
Mãos amigas, calorosas
Mãos que têm muito amor
Mãos que riem e se alegram
Mãos que só andam aos pares
Mãos que estão cansadas da solidão
Mãos que não têm mãos
Mãos que não sabem o que fazer com as mãos que têm
Mãos elegantes e sacanas
Mãos dedicadas e humanas
Mãos que têm tudo a dizer
Mãos que dizem pouco e
Mãos que dizem qualquer coisa só por dizer
Mãos atoladas de serviço
Mãos que fogem do compromisso
Mãos que se esquecem de se lavar
Mãos que são solidárias
Mãos que são encarceradas
Mãos que não fizeram nada mas têm a sentença de ser
Mãos ofegantes
Mãos desprovidas do calor das mãos
Mãos irritadas
Mãos mal-amadas
Mãos “that just speak in English”
Mãos que não conseguem
Mãos que acham que não podem chegar lá
Mãos que prendem os cabelos
Mãos que coçam a careca
Mãos que escondem a face
Mãos que dão a cara a tapa
Mãos que lutam e que suportam a batalha
Mãos indiferentes
Um dia seremos todos mãos-túmulo ou mãos-rosas
E a única certeza que teremos é que estaremos prestes a passar
E o que teremos feito então com as nossas mãos?
09/julho/2008
quarta-feira, 20 de maio de 2009
25/05 – 19h30 – Experiência e pobreza modernista
Prof. Matheus Marques Nunes
21h10 – Turismo Educacional
Prof. Marcos Roberto da Silva
26/05 – 19h30 – O que é o pós- modernismo?
Profª. Ana Paula de Oliveira
21h10hs – O legado da Modernidade
Prof. Cláudio Henrique Bauso
27/05 – 19h30 – Quando as leituras se entrelaçam
Profª. Maria do Carmo Belizário
21h10 – Analogia e ironia: romantismo
Prof. Alexandre de Melo Andrade
28/05 – 19h30 – Música e modernidade
Prof. Cleber Sdern
21h10 - Apresentação de trabalhos dos alunos
29/05 – 19h30 - Sarau de Letras (SESC)
pães
o dia se inicia mudo
morre calado.
esteiras apócrifas estalam no possível entardecer.
a ilusão matinal cheira a centeio
traz as velhas lembranças do pesadelo polido de ontem
o ritmo dos meus pés descalça meu coração
morto selvagem a artéria equilibra meus óculos
sem fundamentos, todo nascimento gera a morte
plantemos o trigo.
Conto, de Ana Carolina Bianco Amaral.
sentada na velha cadeira de vime escuro centeio observo o pequeno objeto abstrato que vinha debaixo da velha porta grafite. Seu reflexo instantâneo surtia devaneio nas minhas íris amarelas amendoadas. Um caminho para a descoberta, o destino e a morte.
Vire-me monstruosamente e observei insetos dos quais designo peçonhentos. Não que uma humilde barata possuísse veneno letal, mas a morte impactante entre suas entranhas e meus óculos esfumaçados era digna de alcova campestre. Num determinado período hesitei entre o spray em droga e o chinelo. A noite era morna e adocicada, a ânsia translúcida me aludia covardemente. As chinelas de domingo me pareciam, nesse advento, inferiores aos meus pés, desisti de calçá-las.
Covarde de mim, covarde de mim. A luz tentava parir sua candura, somente o escuro me adornava. Um atroz arrepio percorria meu corpo frouxo, polido. Sentia minhas unhas rouxear-se num convento inaudito do meu desespero. Minha pele sempre albina copulava negra com o espaço congênito do meu quarto. As irmãs íris, outrora amarelas, cogitavam-me outro segredo inconfessável. A transformação começara. As veias, tão azuis, saltavam dos meus labirintos. Meus lábios apeteciam num tom róseo ruge de natal. Os cabelos se desprendiam, automáticos, do laço de fita e banhavam, rouxos, meu lombo. Aludida com os tortuosos desejos imaculados, fixei-me na sombra. Colinas suíças debatiam no estômago que se rasgava em meu ser. Dor pungente meia da calça. Peremptório suor hidratava a pele negra. Somente um pensamento “de agora então serei barata”. A mutação terminara. Ao acender a luz, o espelho selou minha fisionomia. Por detrás da sombra murcha daquela velha porta, minhas antenas captavam o estrelado do céu. Pegajosa me continha na minha condição. Virei-me. Por detrás daquele reposteiro sombrio e ensolarado estava o rosto de uma doce menina, e no chão, uma fotografia rasgada da mesma face.
Ana Carolina Bianco Amaral.
sábado, 9 de maio de 2009
Meu caro amigo
Com péssima disposição de espírito e num dia chuvoso, enervado, escuro como breu venho responder-lhe à sua longa carta. Começo por lhe pedir perdão de em troca lhe enviar poucas linhas - “poucas e mal alinhavanhadas linhas” lugar-comum que, neste caso, exprime bem a verdade.Não tenho de forma alguma passado feliz nesta terra ideal. Tenho mesmo vivido ultimamente alguns dos dias piores da minha vida. Porquê? indigará você. Por alguma coisa- é a minha resposta. Ou antes:por mil pequeninas coisas que somam um total horrível e desolador. Olho para trás, e os tempos a que eu chamei desventurados, afiguram-se-me hoje auéreos, suaves e benéficos. Diante de mim, a estrada vai pouco a pouco estreitando-se, emaranhando-se, perdendo o arvoredo frondoso que a abrigava do sol e do vento. E eu cada vez mais me convenço que não saberei resistir ao temporal desfeito- à Vida, em suma, onde nunca terei lugar.Vê você, eu sofro porque sinto próxima a hora em que o recreio vai acabar, em que é forçoso entrar para as aulas. Talvez não me compreenda nestas palavras, mas eu não tenho paciência nem força para lhe falar mais detalhadamente. Em suma, não creio em mim, nem no meu curso, nem no meu futuro. Já tomei várias decisões desde que aqui estou e um dia senti, na verdade senti cheio de orgulho, que me chegara finalmente a força necessária para desaparecer. Ilusão dourada! Na manhã seguinte essa força remediável tinha desaparecido. E então resolvi voltar para Lisboa, sepultar dentro de mim ambições e orgulhos. Mas não tive também força para o fazer. Sorria-me Paris e, lá ao longe, um fiozinho de esperança que todas as aspirações dentro de mim me fizeram ver como um facho resplandecente. Desembriagado hoje, porém, observo desolado quanto esse fio é ténue. Mais uma vez fui fraco em resumo- adiei, e sempre boiando cá vou vivendo.Depois, no meio da minha angústia, pequeninas coisas se precipitam a exarcebá-la: A saudade de todas as coisas que vivi, as pessoas desaparecidas que estimei e que foram carinhosas para mim. Mas não é isto só: sofro pelos golpes que tenho a certeza hei-de vir a sofrer, como por exemplo, a morte fatal e próxima de algumas pessoas que estimo prigundamente e são idosas. E sofro ainda também, meu querido amigo, por coisas mais estranhas e requintadas- pelas coisas que não foram. De forma que numa tortura constante tenho vivido nestes últimos dias e cheguei mesmo a chorar uma noite- o que há tanto, desde os quinze anos, não me acontecia.(…)
Grande abraço do seu verdadeiro amigomuito obrigadoMário de Sá-Carneiro.
Excerto de carta de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, incluída no livro “Mário de Sá-Carneiro Correspondência com Fernando Pessoa (Volume I)”
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Pessoal, aqui segue um relato de como me apaixonei pela leitura. Como nunca contei isso a ninguém, resolvi compartilhar com vocês:
Aos 7 anos de idade, morava numa fazenda aqui da região de Ribeirão Preto chamada Santa Mônica, e a escola onde estudaria ficava no Córrego Grande, uma outra fazenda vizinha. Eu, meu irmão e dois vizinhos andávamos mais ou menos um quilômetro e meio a pé e esperávamos na beira da estrada pela professora que vinha de Cravinhos; ela nos pegava com sua Brasília e então descíamos até a escola. No primeiro dia, tomei leite tão depressa que minha irmã até se assustou; é que eu estava entusiasmado à espera desse mundo novo que se descortinaria. No começo, achei que não conseguiria aprender, as letras me vinham como códigos indecifráveis; elas eram muitas, e eu pouco. A cartilha “No Reino da Alegria” trazia aquele sistema tradicional de junção silábica, e eu tinha medo dessas letras que se uniam a outras para formarem palavras. Nos primeiros dias, minha mãe me perguntava se eu estava aprendendo, e eu dizia que sim, pois não queria decepcioná-la. Certo dia, como numa epifania, consegui ler a primeira lição da cartilha, e percebi que o mesmo sistema utilizado para a formação de uma sílaba era utilizado para outra; dessa forma, compreendi que bastava identificar a sonoridade da consoante para saber pronunciá-la com qualquer vogal. A descoberta foi tão repentina que numa tarde, andando na carroça da fazenda com meu irmão e com a cartilha entre os joelhos, pude lê-la quase por inteiro, para espanto dele e de mim mesmo. Eu estava maravilhado; já não eram apenas letras que entravam pelos meus olhos, mas palavras inteiras, frases completas. Eu não conseguia parar de ler. Meus irmãos me pediam o tempo todo para ler, inclusive letreiros que apareciam em produtos e anúncios. Descobrindo a palavra, eu descobria um universo de possibilidades. E como isso me satisfazia! Um ano depois, estando na segunda série do grupo, outra professora nos pegava (agora era com um Fusca branco) e nos levava até o Córrego Grande. Eu sentia falta de ler outras coisas, a cartilha não me bastava e eu me cansava dela. Nós não tínhamos livros; apesar de alfabetizados, meus pais e meus irmãos não manifestavam interesse por leituras. Foi então que desenterraram lá em casa uma Bíblia do Novo Testamento que uma ex-professora do meu irmão havia nos vendido quando morávamos em outra fazenda. Belica – assim ela era chamada –, muito religiosa, quisera, na ocasião, que a família de cada aluno portasse uma Bíblia. Comecei a lê-la às tardes e à noite. Porém, eu não a lia com interesse religioso, o que me encantava nela era a narrativa em si, a história de um personagem chamado Jesus Cristo e sua trajetória de vida. Eu criava imagens mentais, devorava as páginas e acompanhava o enredo com expectativa. Meu interesse pela Bíblia era ficcional, eu não pensava na veracidade do que lia, e isso nem me interessava. Foi dessa forma que descobri meu gosto por “estórias”. No ano seguinte, quando acabava de completar 9 anos, nós nos mudamos para Cravinhos, e pela primeira vez eu estudaria numa sala com muitos alunos, numa escola grande... e tudo era realmente grande demais, assustador, a ponto de eu não querer mais ficar na escola. Minha mãe me transferiu, então, para o colégio onde meu irmão estudava, lá eu me sentiria mais seguro. Descobri logo que havia uma biblioteca na cidade, e eu fui até lá para conhecê-la. A primeira vez que entrei foi inesquecível, eram muitos livros olhando para mim distribuídos em prateleiras várias, eu nunca tinha visto outro livro que não fosse a tal Bíblia sagrada ou a cartilha. Timidamente, percorri os corredores. Sentia um cheiro de papel envelhecido que brotava do fundo dos livros; eu os pegava nas mãos, abria suas páginas – muitas até amarelecidas – e ficava folheando-as, embebido pelas novas estórias que surgiam através delas. Era muito difícil decidir pelo livro que queria ler; acho que se pudesse, leria todos de uma só vez. Eu levava para casa livros de Maria José Dupré, Pedro Bandeira, Clarice Lispector, e até de escritores estrangeiros que eram traduzidos no Brasil. Tinha uma semana para devolvê-los, porém antes do prazo eu já os trazia de volta. Confesso que ficava um tanto envergonhado, pois a bibliotecária – uma senhora um pouco gorda, de cor clara e cabelos louros – me via chegar e mostrava um breve e simpático sorriso, como quem diz: “Olha ele aí de novo!”. Eu não conseguia ficar uma semana sem aparecer por lá, pegava um livro já sabendo o que queria para a semana seguinte. Os livros ficavam me esperando, queriam ser lidos por mim, e eu tinha o tempo todo do mundo para saboreá-los. Em casa, enquanto lia um, deixava outro à espera, e isso me causava certa euforia, era um encantamento só com a idéia de que havia outro por ali, sobre a mesa, sobre o sofá, sobre a cama... Eu me deparava com eles, às vezes por querer, outras vezes sem querer, e eu me espantava de vê-los assim, era como uma refeição deliciosa que esperava para ser deglutida, de forma que só de vê-la já ficamos com aquela sensação de água na boca. Esses sentimentos eram a minha “felicidade clandestina”, tal qual eu li muitos anos mais tarde no conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector. Nunca mais parei de ler. Acho que quem descobre o encantamento da palavra não consegue se divorciar dela. Meus livros foram meus maiores amigos da infância, com eles eu pude viajar por múltiplos caminhos apenas deitado em minha cama ou na poltrona da sala, eles me permitiram desenvolver a capacidade de introspecção, tão rara às crianças e adolescentes de nosso tempo. Até hoje, quando vou a uma livraria, perco-me no tempo e fico folheando as páginas dos livros, sentindo o cheiro que brota delas, encantado com o mundo que jorra dali. Nestes momentos, percebo em mim a presença daquele menino de 7 anos que, por falta de livros, encantava-se com a narrativa bíblica e depois sentia o perfume dos livros velhos e amarelos da biblioteca que lhe abriam o universo da imaginação. (Alexandre de Melo Andrade)
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Naquele canto
Há um menino
Sozinho.
Ele chora, implora.
As lágrimas correm,
Descem seu rosto
Feito um mar atormentado.
Seu coração está apertado.
Os sentimentos em uma mistura
Formaram um laço de desespero
Tristeza, dor, aflição,
Pavor, medo e tentação.
O mundo roda,
Aquele burguês vai e volta.
Mas o menino continua parado
No mesmo estado.
Oh! Menino inocente!
Chora!
Chora!
Chora!
Lamente!
Mas lembre-se,
Que o culpado do seu choro
É aquele que discursou,
Que convenceu,
Que iludiu, seduziu.
Esse maldito,
Não quer saber de sua situação.
Não quer saber que a sua cama
É o chão.
Malditos! Malditos!
Todos aqueles que fingem.
Hipócritas!
Encenam uma comédia
Pois suas vidas são máscaras,
Escondem do mundo
E tem medo da vida.
Passam,
Sobre o menino
E nada fazem
Nada querem fazer
Porque não querer perder.
Perder? Sim perder.
O poder.
A postura falsa,
Que aceitaram
Que o escolheram
Para cada um de vós.
Grita menino!
Quem sabe alguém não escuta?Quem sabe o vento responda?Quem sabe o destino muda?Tente! Mais uma vez.
O seu choro
Pode convencer alguém,
E quem sabe
Sua história não seja outra.
O passado você não irá apagar,
Mas o futuro poderá mudar.
Tente! Chore! Grite!
Um dia você será atendido
Mesmo que pelo cruel destino ...
(Alex Moretto - aluno do curso de Letras da FABAN)