Já há sete anos lecionando no curso de Letras, é possível perceber as transformações que vão se operando no graduando desta área do conhecimento. Muitos chegam sem a real compreensão do que trata o curso; outros parecem buscar apenas o certificado, alegando ser necessário, "hoje em dia", ter um curso superior; e ainda há aqueles vocacionados para as letras, que já chegam com certa bagagem de leitura e vontade de aprofundar seus conhecimentos linguísticos e literários. No meio da caminho, muitos desistem, pois não é fácil estudar Letras sem a devida dedicação; por outro lado, muitos daqueles que chegam sem o suficiente preparo acabam se identificando de tal maneira que se tornam exemplos de boa conduta, dedicação e entusiasmo. Ensinar literatura é o mesmo que ensinar a gostar de literatura? Até certo ponto sim, porém não depende apenas do professor, mas de um envolvimento do aluno para com as disposições teóricas e as leituras "obrigatórias"; um dos sintomas de que este envolvimento esteja acontecendo é quando eles não encaram mais as leituras como obrigatórias, mas como fontes de conhecimento e prazer. O aluno não deve aprender Fernando Pessoa pensando que precisa ensinar, depois, no Ensino Médio, as características de cada heterônimo; também não deve estudar Romantismo com a ingênua visão de que precisa saber responder, na prova, onde o movimento começou, quais as suas características, seus autores e obras. O aluno deve se abrir ao olhar transformador, compreeder as obras e as matrizes teóricas como formas de ampliar sua visão sobre o mundo e sobre si mesmo. Um estudante de literatura não pode ser alheio aos conteúdos, mas perceber-se como parte integrada de um "mecanismo" que leva em conta subjetividades, percepções e criações. Afinal de contas, o que faz das grandes obras o que elas são, é sua capacidade de "sempre dizer", de "não se fechar a um tempo"; ainda que se olhe para ela com o distanciamento de um crítico, é preciso compreender e aceitar que num primeiro momento deve-se senti-la. Ler um conto de Clarice Lispector desejando aplicar teorias é como encará-la do ponto de vista matemático, lógico, preciso. Entregar-se a uma leitura de forma desprovida, inicialmente, é devolver a ela sua originalidade e sua capacidade de surpreender. Digo isso pensando nos estudantes de Letras, que muitas vezes consideram as leituras como um "peso" a ser carregado durante alguns anos de graduação. Por outro lado, é de extrema satisfação acompanhar o progresso de tantos outros alunos que se percebem amantes da literatura, e devoram as obras, as aulas e os estudos como quem experimenta sempre o novo; é nítida sua mudança de postura e de habilidade verbal, além de seu refinamento de espírito. Por estes alunos, vale muito a pena propor discussões, análises e leituras; com eles, rememoramos o prazer proporcionado pela descoberta das "primeiras e eternas letras".
Este blog, sob responsabilidade de Alexandre de Melo Andrade, objetiva o contato com obras e teorias literárias, publicadas e inéditas, permitindo o diálogo entre os estudiosos desta arte e o acesso a estudos diversos abarcados por este universo.
"O artista é o viajante feliz que, após ter longamente navegado sobre as águas da dúvida, nas trevas do esforço, pode, enfim, bradar: terra!"
(Mikel Dufrenne)
(Mikel Dufrenne)
domingo, 24 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Depois de onze anos da sua última obra poética, Ferreira Gullar publica, em 2010, Em alguma parte alguma. Já aclamado pela crítica – e não poderia ser diferente –, a obra poética aparece prefaciada por Alfredo Bosi e Antonio Carlos Secchin, que ressaltam a qualidade e a originalidade da voz poética de Gullar. Militante na vida política, artística e cultural, o poeta e crítico participou de movimentos vários, tendo acompanhado de perto alguns desdobramentos de vanguarda e, dentre eles, o Concretismo e suas ramificações, a partir da década de 50. Seu contato imediato com as linhas de força da poesia brasileira desde o Modernismo lhe proporcionou um poetar de múltiplas vozes e tendências, além de um diálogo fremente com a herança recebida dos vários modernismos e da contemporaneidade, o que se percebe, também, na última obra. Segue, abaixo, um poema que compõe Em alguma parte alguma:
A ESTRELA
Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?
Dizem que todo este nosso imenso planeta
coberto de oceanos e montanhas
é menos que um grão de poeira
se comparado a uma delas
Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos
O mesmo que a eternidade
Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
quanto dura uma estrela
Importa-me quanto duras tu,
querido amigo,
e esses teus olhos azul-safira
com que me fitas
terça-feira, 29 de março de 2011
Fiquei, esta semana, lisonjeado com o carinho e a emoção de meus alunos da UNIESP, que gentilmente vieram me cumprimentar com tanta satisfação e orgulho pela minha defesa de doutoramento. Fica aqui minha admiração e meu agradecimento especial aos alunos da segunda etapa de Letras, que além de tudo ainda me presentearam. É uma honra ser professor de alunos tão carinhosos, amantes da literatura e bons amigos. Só posso retribuir a todos com aulas ainda mais entusiasmadas e empolgantes, e desejando que o caminho de cada um seja, também, de glórias e riquezas, com a possibilidade de fazer o que realmente escolherem. Beijo carinhoso a vocês!
domingo, 20 de março de 2011
Acabou de sair a oitava edição da Revista Inventário, da UFBA, sobre estudos literários e linguísticos. O oitavo artigo, intitulado "O pensamento crítico de Álvares de Azevedo", é de minha autoria. Para acesso, segue o link da revista:
http://www.inventario.ufba.br/
(Alexandre)
domingo, 27 de fevereiro de 2011
LEMBRANÇA
Quando voltei de viagem
O cão já estava morto
Enterrado num lugar
Que eu não queria saber
Onde era
Durante anos
estivera comigo
sozinho.
Via-me em seu olhar
que saltitava em cada chegada
e pululava
em minha volta
querendo agarrar
a minha alma
Morreu só.
Morreu se lembrando
de minhas mãos
em seu pêlo
de meu olhar
naquelas manhãs
que eram só nossas!
Morreu me perdoando...
(Alexandre)
Quando voltei de viagem
O cão já estava morto
Enterrado num lugar
Que eu não queria saber
Onde era
Durante anos
estivera comigo
sozinho.
Via-me em seu olhar
que saltitava em cada chegada
e pululava
em minha volta
querendo agarrar
a minha alma
Morreu só.
Morreu se lembrando
de minhas mãos
em seu pêlo
de meu olhar
naquelas manhãs
que eram só nossas!
Morreu me perdoando...
(Alexandre)
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
ÀQUELES QUE GOSTAM DE ESCREVER...
Limpa tuas vestes e, se possível, que todas as peças de roupas sejam brancas, pois isso ajuda a conduzir o coração ao temor de Deus e ao amor a Deus. Se é noite, acende muitas luzes, até que tudo fique claro. Toma então em tuas mãos a pena, tinta e uma mesa e lembras que estás destinado a servir a Deus na alegria do coração. Agora começa a combinar umas poucas ou muitas letras, a permutá-las e combiná-las até que teu coração se aqueça. Então atenta para os movimentos delas e para o que podes extrair delas ao movê-las. E quando sentires que teu coração já está aquecido e quando vires que pelas combinações de letras podes apreender novas coisas que por ti próprio ou pela tradição humana não terias como saber e quando portanto estiveres preparado para receber o influxo do poder divino que flui para o teu interior, então põe todo o teu pensamento mais verdadeiro a imaginar em teu coração o Nome e Seus anjos exaltados como se eles fossem seres humanos sentados, ou em pé, à tua frente. (Abraham Abulafia)
O texto acima compõe a abertura do livro Clarice, (do original Why this world?), escrito por Benjamin Moser, que tem como eixo a trajetória da escritora Clarice Lispector. Achei muito apropriado, tendo também em vista que ela mesma, meses antes de morrer, declarou numa entrevista: "Quando não escrevo, estou morta!"
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
A revista eletrônica Texto Poético publica, semestralmente, textos de crítica desenvolvidos por doutores e doutorandos, com qualificação reconhecida. A sua oitava edição acabou de sair e consta de 13 artigos e uma entrevista. Entre os artigos, há um sobre a poesia de Alexei Bueno escrito por mim. Abaixo, repasso o site para acesso:
http://www.textopoetico.org/
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Mary e Max - uma amizade diferente
Eu não poderia deixar de compartilhar e indicar um novo filme, que vi por estes dias e muito me agradou. Mary e Max - uma amizade diferente, ainda que seja apresentado em animação, propõe uma reflexão para o público adulto a respeito das neuroses e fobias que tomaram conta dos consultórios de analistas e terapeutas no mundo contemporâneo. Dirigido por Adam Elliot, o filme conta a trajetória (de aproximadamente 15 anos) de dois personagens: Mary, com 8 anos de idade no início, e Max, com 44. Vivendo em mundos distantes - ela, na Austrália; ele, em Nova York - eles se correspondem durante o período em que dura a história, movidos, a princípio, pela curiosidade de Mary: ela quer saber se na América as crianças nascem do fundo de uma caneca de cerveja, conforme sua mãe lhe ensinara, ou de um outro modo, como de uma caneca de coca-cola, por exemplo. Desde a primeira carta trocada por ambos, há uma reflexão profunda acerca de amizade, confiança, convivência, origem da vida, relações sociais, religião etc, de onde emerge uma profunda amizade que, apesar da distância, passa também pela problemática da incompreensão, da discussão e do afastamento, com um final brilhante. Além das reflexões colocadas acima, o filme nos leva a pensar sobre o papel que assumimos num possível caos que tem se tornado a vida nos últimos decênios, as psicopatologias, os velhos e novos meios de comunicação/aproximação entre as pessoas, a melancolia provinda da modernidade, a distância entre teoria e prática dos estudos acadêmicos, e até mesmo em questões de ordem narrativa, como a narratividade das cartas, entremeadas pela narrativa em terceira pessoa de um observador que vai costurando a história e unindo os universos de Mary e Max. Fica, aqui, a recomendação! Abaixo, o trailer:
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Clarice Lispector, por Beth Goulart
Fiquei emocionado este final de semana, ao assistir à peça de teatro "Simplesmente eu, Clarice Lispector", no teatro Renaissance - São Paulo - com atuação e direção de Beth Goulart. O espetáculo mostra a trajetória da escritora em direção ao entendimento do amor, com personagens dialogando sobre vida e morte, criação, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, inspiração e entendimento. O texto é extraído de depoimentos, entrevistas, correspondências e trechos das obras Perto do Coração Selvagem, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres e dos contos Amor e Perdoando Deus. Beth Goulart interpretou brilhantemente estes textos, inclusive Clarice Lispector como personagem de si mesma, no mínimo provocando no público um desejo imenso de conhecer mais profundamente esta autora, que é uma das mais intrigantes de nossa história literária. Vale a pena conferir!
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Vejam a delicadeza de um poema de Fabrício Corsaletti, um poeta estreante que vem se destacando entre os contemporâneos:
os tomates
fervendo na panela
meu pai minha mãe
na sala televisão
fiquei olhando
os tomates
estava frio o bafo
quente dos tomates
esquentava as mãos
saía da panela
já naquele dia
um cheiro
forte de passado
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
SOBRE A SEDUÇÃO
Encontrei, esses dias, o seguinte texto:
O que se diz de imediato sobre a sedução é que é um jogo. Caçada silenciosa entre dois olhares; captura numa rede perigosa de palavras. Jogo arriscado e fascinante - angústia e gozo - onde o vencedor não sabe o que fazer de seu troféu e o perdedor só sabe que perdeu seu rumo: um jogo cuja única possibilidade de empate se chama amor.
Jogo que pretendo abordar do ponto de vista do aparente perdedor - o seduzido - já que é ele quem nos deixa registro sobre sua experiência. É o seduzido que se expressa - na poesia, na literatura, nos consultórios de psicanálise. É o seduzido que tenta compreender a transformação que se deu nele ao mesmo tempo que tenta entender o poder do olhar sedutor. [...] O sedutor é o que não se revela. Mas revela alguma coisa - o quê? - sobre o seduzido.
(Maria Rita Kehl)
E por falar em sedução, aqui segue o poema "A mulher e a casa", de João Cabral de Melo Neto:
Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.
Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,
uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.
Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;
pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;
pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,
os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,
exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.
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