"O artista é o viajante feliz que, após ter longamente navegado sobre as águas da dúvida, nas trevas do esforço, pode, enfim, bradar: terra!"

(Mikel Dufrenne)

terça-feira, 29 de março de 2011

Fiquei, esta semana, lisonjeado com o carinho e a emoção de meus alunos da UNIESP, que gentilmente vieram me cumprimentar com tanta satisfação e orgulho pela minha defesa de doutoramento. Fica aqui minha admiração e meu agradecimento especial aos alunos da segunda etapa de Letras, que além de tudo ainda me presentearam. É uma honra ser professor de alunos tão carinhosos, amantes da literatura e bons amigos. Só posso retribuir a todos com aulas ainda mais entusiasmadas e empolgantes, e desejando que o caminho de cada um seja, também, de glórias e riquezas, com a possibilidade de fazer o que realmente escolherem. Beijo carinhoso a vocês!

domingo, 20 de março de 2011

Acabou de sair a oitava edição da Revista Inventário, da UFBA, sobre estudos literários e linguísticos. O oitavo artigo, intitulado "O pensamento crítico de Álvares de Azevedo", é de minha autoria. Para acesso, segue o link da revista:

http://www.inventario.ufba.br/

(Alexandre)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

LEMBRANÇA



Quando voltei de viagem
O cão já estava morto

Enterrado num lugar
Que eu não queria saber
Onde era


Durante anos
estivera comigo
sozinho.
Via-me em seu olhar
que saltitava em cada chegada
e pululava
em minha volta
querendo agarrar
a minha alma


Morreu só.
Morreu se lembrando
de minhas mãos
em seu pêlo
de meu olhar
naquelas manhãs
que eram só nossas!
Morreu me perdoando...

(Alexandre)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

ÀQUELES QUE GOSTAM DE ESCREVER...

Limpa tuas vestes e, se possível, que todas as peças de roupas sejam brancas, pois isso ajuda a conduzir o coração ao temor de Deus e ao amor a Deus. Se é noite, acende muitas luzes, até que tudo fique claro. Toma então em tuas mãos a pena, tinta e uma mesa e lembras que estás destinado a servir a Deus na alegria do coração. Agora começa a combinar umas poucas ou muitas letras, a permutá-las e combiná-las até que teu coração se aqueça. Então atenta para os movimentos delas e para o que podes extrair delas ao movê-las. E quando sentires que teu coração já está aquecido e quando vires que pelas combinações de letras podes apreender novas coisas que por ti próprio ou pela tradição humana não terias como saber e quando portanto estiveres preparado para receber o influxo do poder divino que flui para o teu interior, então põe todo o teu pensamento mais verdadeiro a imaginar em teu coração o Nome e Seus anjos exaltados como se eles fossem seres humanos sentados, ou em pé, à tua frente. (Abraham Abulafia)

O texto acima compõe a abertura do livro Clarice, (do original Why this world?), escrito por Benjamin Moser, que tem como eixo a trajetória da escritora Clarice Lispector. Achei muito apropriado, tendo também em vista que ela mesma, meses antes de morrer, declarou numa entrevista: "Quando não escrevo, estou morta!"

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ACEITA O UNIVERSO
COMO TO DERAM OS DEUSES.
SE OS DEUSES TE QUISESSEM DAR OUTRO
TER-TO-IAM DADO.

SE HÁ OUTRAS MATÉRIAS E OUTROS MUNDOS -
HAJA.

(Alberto Caeiro)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A revista eletrônica Texto Poético publica, semestralmente, textos de crítica desenvolvidos por doutores e doutorandos, com qualificação reconhecida. A sua oitava edição acabou de sair e consta de 13 artigos e uma entrevista. Entre os artigos, há um sobre a poesia de Alexei Bueno escrito por mim. Abaixo, repasso o site para acesso:

http://www.textopoetico.org/

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Olhar-se no espelho
e captar-se a si
no próprio olhar-outro


(Sou o que vejo
o que é visto é-me!)


Espanto tímido
num espectro de luz
num relâmpago de nudez
lucidez...


Olhar o próprio olhar no espelho
é simples como
rezar poesia




(Alexandre)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Mary e Max - uma amizade diferente



Eu não poderia deixar de compartilhar e indicar um novo filme, que vi por estes dias e muito me agradou. Mary e Max - uma amizade diferente, ainda que seja apresentado em animação, propõe uma reflexão para o público adulto a respeito das neuroses e fobias que tomaram conta dos consultórios de analistas e terapeutas no mundo contemporâneo. Dirigido por Adam Elliot, o filme conta a trajetória (de aproximadamente 15 anos) de dois personagens: Mary, com 8 anos de idade no início, e Max, com 44. Vivendo em mundos distantes - ela, na Austrália; ele, em Nova York - eles se correspondem durante o período em que dura a história, movidos, a princípio, pela curiosidade de Mary: ela quer saber se na América as crianças nascem do fundo de uma caneca de cerveja, conforme sua mãe lhe ensinara, ou de um outro modo, como de uma caneca de coca-cola, por exemplo. Desde a primeira carta trocada por ambos, há uma reflexão profunda acerca de amizade, confiança, convivência, origem da vida, relações sociais, religião etc, de onde emerge uma profunda amizade que, apesar da distância, passa também pela problemática da incompreensão, da discussão e do afastamento, com um final brilhante. Além das reflexões colocadas acima, o filme nos leva a pensar sobre o papel que assumimos num possível caos que tem se tornado a vida nos últimos decênios, as psicopatologias, os velhos e novos meios de comunicação/aproximação entre as pessoas, a melancolia provinda da modernidade, a distância entre teoria e prática dos estudos acadêmicos, e até mesmo em questões de ordem narrativa, como a narratividade das cartas, entremeadas pela narrativa em terceira pessoa de um observador que vai costurando a história e unindo os universos de Mary e Max. Fica, aqui, a recomendação! Abaixo, o trailer:


segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Clarice Lispector, por Beth Goulart

Fiquei emocionado este final de semana, ao assistir à peça de teatro "Simplesmente eu, Clarice Lispector", no teatro Renaissance - São Paulo - com atuação e direção de Beth Goulart. O espetáculo mostra a trajetória da escritora em direção ao entendimento do amor, com personagens dialogando sobre vida e morte, criação, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, inspiração e entendimento. O texto é extraído de depoimentos, entrevistas, correspondências e trechos das obras Perto do Coração Selvagem, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres e dos contos Amor e Perdoando Deus. Beth Goulart interpretou brilhantemente estes textos, inclusive Clarice Lispector como personagem de si mesma, no mínimo provocando no público um desejo imenso de conhecer mais profundamente esta autora, que é uma das mais intrigantes de nossa história literária. Vale a pena conferir!


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vejam a delicadeza de um poema de Fabrício Corsaletti, um poeta estreante que vem se destacando entre os contemporâneos:

Tomates

os tomates
fervendo na panela
meu pai minha mãe
na sala televisão
fiquei olhando
os tomates
estava frio o bafo
quente dos tomates
esquentava as mãos

saía da panela
já naquele dia
um cheiro
forte de passado

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Árvore seca
sem copas, sem folhas
seus galhos presos no ar
arquitetura.

A árvore em si, toda aberta
aberta em desflor
rígida desconstrução.

A árvore se mostra
em sua secura sustentada
em rede enrijecida
em fino equilíbrio.

Árvore antiárvore
Absoluta.

(Alexandre de Melo Andrade)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

SOBRE A SEDUÇÃO

Encontrei, esses dias, o seguinte texto:

     O que se diz de imediato sobre a sedução é que é um jogo. Caçada silenciosa entre dois olhares; captura numa rede perigosa de palavras. Jogo arriscado e fascinante - angústia e gozo - onde o vencedor não sabe o que fazer de seu troféu e o perdedor só sabe que perdeu seu rumo: um jogo cuja única possibilidade de empate se chama amor.
     Jogo que pretendo abordar do ponto de vista do aparente perdedor - o seduzido - já que é ele quem nos deixa registro sobre sua experiência. É o seduzido que se expressa - na poesia, na literatura, nos consultórios de psicanálise. É o seduzido que tenta compreender a transformação que se deu nele ao mesmo tempo que tenta entender o poder do olhar sedutor. [...] O sedutor é o que não se revela. Mas revela alguma coisa - o quê? - sobre o seduzido.
(Maria Rita Kehl)

E por falar em sedução, aqui segue o poema "A mulher e a casa", de João Cabral de Melo Neto:

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Livros na era da informática

Algumas semanas de férias e aqui estamos novamente, rodeados por livros, compromissos, trabalhos... e a vida segue seu curso, não em linha reta, mas em linhas sinuosas que se justificam na medida em que se perfazem. A rotina volta em nosso cotidiano, porém acrescida de novas experiências e expectativas.
O que mais tenho ouvido ultimamente é a respeito do fim das livrarias em detrimento dos livros virtuais. Passeando pela livraria Cultura, em S. Paulo, e por outras de nossa região, fica difícil acreditar nisso. Não se trata do fim das livrarias, dos livreiros nem dos livros da forma como conhecemos. Trata-se, na verdade, de uma nova forma de comercialização e acesso a eles que vem crescendo na sociedade informatizada, como tantas outras coisas que igualmente facilitaram a vida das pessoas e o acesso a informações e produtos de forma virtual. Por outro lado, nunca se produziu tanta poesia no Brasil, postada em blogs e sites especializados. Tamanha é a dificuldade em se publicar livros no Brasil, que muitos optaram por divulgar seus próprios textos pelo acesso via internet. Não me refiro apenas a poetas e poesias, mas a filósofos, biólogos, sociólogos e tantos outros que, capacitados intelectualmente para a divulgação de suas ideias, dedicam-se a produzir e provocar ideias, contactando-se com pessoas diversas, sendo mais lidos do que outros tantos que têm seus livros adormecidos nas estantes das bibliotecas e livrarias. O filósofo, escritor e professor Paulo Ghiraldelli Jr., da UFRRJ, por exemplo, envia semanalmente, via internet, seus textos sobre filosofia e educação, com qualidade incomensurável, contribuindo para a formação de novos leitores e proporcionando reflexão e conhecimento. Acredito que não estamos diante de um decreto apocalíptico do fim dos tempos das livrarias e das bibliotecas, mas diante de uma nova era em que o conhecimento e a propagação de ideias estejam rompendo a barreira do próprio mercado editorial, avançando rumo a uma experiência de criatividade do sujeito na sua própria liberdade de expressão artística e informativa.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A LIBERDADE É AZUL

Aqui vai uma dica de filme: A Liberdade é Azul, do diretor K. Kieslowski, com Juliette Binoche protagonizando. É extraordinária a forma como o sentimento de tristeza, dor e angústia é tratado no filme. Após perder o marido e a filha num acidente em que só ela sobrevive, Julie perde todo o sentido da vida e, após tentativa frustrada de suicídio, desfaz de todos os seus bens e passa a habitar no vazio da existência, onde nem mesmo consegue chorar ou expressar emoção alguma. Sempre auxiliando o marido nas composiçõe de suas músicas (seu marido era compositor mundialmente conhecido), Julie não consegue se interessar pelo fim de uma composição deixada por ele inacabada e, muito ocasionalmente, descobre que seu marido tinha uma amante; conhecendo a amante, descobre que ela está grávida dele. Ancorada por Olivier, amigo de seu falecido marido e homem que sempre nutrira uma paixão por ela, consegue dar continuidade à composição deixada pelo marido, e começa a redescobrir um sentido para a sua vida.
A cor azul, como metáfora a uma vida livre das amarras da instituição familiar e simbologia de dor e sofrimento, permeia todo o filme, ora através de objetos à volta da personagem, ora através da piscina onde ela mergulha para, também metaforicamente, sentir-se congelada e sem vida. A vida, continuando como flashs à sua volta, mostra que tudo se renova e que o movimento da existência faz brotar sentimentos onde e quando não se esperava que brotasse. É sensível e poética a forma como o diretor lidou com as questões referentes à morte, à vida e à liberdade. (Alexandre)


quarta-feira, 30 de junho de 2010

CHEGUEI AO MUNDO DESARRUMADO
E FUI ME ARRUMANDO.

TRISTE SINA!

(Alexandre)