"O artista é o viajante feliz que, após ter longamente navegado sobre as águas da dúvida, nas trevas do esforço, pode, enfim, bradar: terra!"

(Mikel Dufrenne)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

CHEGUEI AO MUNDO DESARRUMADO
E FUI ME ARRUMANDO.

TRISTE SINA!

(Alexandre)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Orides Fontela: sempre me encantando com a delicadeza de seus versos...

Se vens a uma terra estranha
curva-te
se este lugar é esquisito
curva-te
se o dia é todo estranheza
submete-se
_ és infinitamente mais estranho
(Orides Fontela)

sábado, 19 de junho de 2010

LIVRE
(A Clarice Lispector)

Ser livre:
Conhecer-se.

Ser livre:
Ciência (demais) de si.

Ser livre dói:
exige escolhas.

_ Você matou meu personagem!

(Alexandre de Melo Andrade)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

V SARAU LITERÁRIO - MORRO DEPOIS DE TE BEIJAR


 



Ontem aconceteceu o V Sarau Literário UNIESP-FABAN, dos alunos da graduação em Letras, organizado e dirigido por mim, no SESC aqui de Ribeirão Preto. A expectativa era grande, pois o sucesso do sarau do ano passado nos fez pensar numa superação e ousar novos desafios. Ficamos todos surpresos com a quantidade de pessoas - aproximadamente 200 -, o que fez com que todo o espaço do Galpão de Eventos ficasse lotado, a ponto de uma parte do público ter ficado de pé pela impossibilidade de se acomodarem as pessoas sentadas. O sarau foi marcado por apresentações no palco e outras que surpreendiam o público no meio mesmo da plateia. Guiados pela voz de um narrador que mostrava algumas das faces da relação amorosa, os alunos declamaram textos em prosa e em verso de escritores como Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Florbela Espanca, Shakespeare, Vinícius de Moraes, Sóror Mariana Alcoforado, Eurípedes, José de Alencar, Graciliano Ramos e outros. O público ficou emocionado com a qualidade técnica e textual do sarau, reagindo de forma calorosa às apresentações. Confesso ter ficado espantado com a repercussão do evento, e sinto-me realmente satisfeito e lisonjeado por ter contribuído para a divulgação da literatura de forma mais próxima do grande público. Pela singela e marcante voz de nossos queridos alunos, pessoas dos mais variados contextos entraram no universo dos mais variados escritores, saindo de lá inebriados de poesia. Já fica aqui a expectativa para o próximo sarau!!!
Não posso deixar de agradecer pessoas que tiveram fundamental importância para a realização do evento... tudo funcionou como uma orquestra: ao apoio do SESC - com destaque à figura do Cléber -, que apostou mais uma vez na qualidade do sarau; à coordenadora do curso de Letras, Valéria Castrequini, pelo apoio sempre imprescindível; aos professores do curso de Letras, solícitos e generosos; aos ex-alunos Alan, Bruna e Talita, hoje excelentes professores, que voltaram para novamente participarem do sarau; às alunas Karina e Priscila, que contribuíram, de forma competente, para a organização técnica do evento; ao Luciano, responsável técnico pela iluminação, pelo brilhantismo com que desempenhou sua função; ao Newton, no que tange o suporte musical, que mais uma vez surpreendeu a todos com seu teclado, seu violão e sua voz; ao Crístian, por ter se envolvido na divulgação do sarau, tendo demonstrado grande competência publicitária; ao CNA, escola de idiomas, pelo patrocínio concedido; e, para terminar, aos alunos que participaram do sarau, dando um verdadeiro "show" de declamação.
Sinto-me ainda em estado de encantamento com o que aconteceu ontem. MEU OLHAR ESTÁ POÉTICO!

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ana Cristina César foi dessas poetas que marcaram a história da poesia brasileira pela intensidade vital de seus versos. Embora estivesse no contexto da Poesia Marginal, ousou uma escrita que, confundida com biografismos, revela uma poesia fragmentária e com tendências contemporâneas. Nascida no Rio de Janeiro em 2 de junho de 1956, a poeta cometeu suicído em 20 de outubro de 1983. Encontrei esses dias o seguinte poema, de Drummond, dedicado a ela:

Ausência



Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta..
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.


(Carlos Drummond de Andrade – Com o pensamento em Ana Cristina)

domingo, 16 de maio de 2010

Livraria, Café e Cinema


Gosto de passear em shoppings, mas fico pensando o que me atrai neste lugar. Como não sou consumista nem do tipo que aprecia vitrine como se estivesse diante de um copo d'água depois de caminhar muito no deserto, constatei que nunca consigo entrar num deles sem ficar parte do tempo na livraria. Sim, o que há de melhor num shopping é a livraria, onde o consumo vem acompanhado de um acréscimo no conhecimento e um prazer ao espírito. Ainda fiquei pensando que todas as vezes, na saída, paro num café, peço um expresso e fico observando o vai-e-vem de pessoas enquanto me entregam o café e eu o saboreio como quem contempla, com o próprio palato, a vida que acontece à minha volta. E por último, vejo que o cinema me agrada, embora não vá com tanta constância. Livraria, café e cinema... entrelaçados por uma adrenalina aos sentidos e às emoções, embora com a calmaria de quem descobre o prazer em coisas tão ao alcance da mão e dos olhos. Shopping sem livraria, café e cinema seria o lugar mais chato do mundo!

Alexandre de Melo Andrade.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

AS TRÊS EXPERIÊNCIAS



Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. "O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida . Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca. E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever. Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres. Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
(Clarice Lispector)

sábado, 24 de abril de 2010

MORRO DEPOIS DE TE BEIJAR
V SARAU LITERÁRIO – UNIESP/FABAN


Partindo da última frase de Otelo – “Morro depois de te beijar” –, da tragédia de Shakespeare, a UNIESP/FABAN apresenta seu V Sarau Literário. Formado por alunos do curso de graduação em Letras, o sarau deste ano traz como tema os conflitos diversos que tangem a relação amorosa. Os sentimentos despertados pela trama dos amantes aparecem, na apresentação, tanto nas suas manifestações mais sutis como nas mais arrebatadoras. A “quadrilha amorosa”, os encontros e desencontros, as paixões intensas e as surpresas que desmontam a razão aparecerão em textos declamados e dramatizados de grandes nomes da literatura brasileira e estrangeira, como Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Vinícius de Moraes, José de Alencar, Florbela Espanca, Goethe, Shakespeare, Jean Paul Sartre e outros. O amor, situado entre o morrer e o beijar, aponta para prismas que atestam sua mais paradoxal definição!



Dia 02 de junho, às 20 h


No Galpão de Eventos do SESC – Ribeirão Preto


Direção: Alexandre de Melo Andrade
O amor é que é essencial

O AMOR é que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

(Fernando Pessoa)

sábado, 10 de abril de 2010

V SARAU LITERÁRIO

A UNIESP-FABAN apresenta, sob minha direção, o V Sarau Literário:

MORRO DEPOIS DE TE BEIJAR

Dia 02 de junho, às 20h, no Galpão de Eventos do SESC - Ribeirão Preto.


Em breve, uma sinopse do evento aqui no blog. 

sexta-feira, 2 de abril de 2010

INSÔNIA

Não é por falta de sono, é por falta de desligamento mesmo. Ter insônia é ter que se entregar e não querer, ou não poder, ou não conseguir, ou tudo isso junto. É fechar os olhos para o quarto, mas não fechá-los para si. É permanecer, quando se desejasse e devesse ir. É um ser-eu-aqui, quando precisaria de um ser-eu-lá, ou melhor, apenas um “lá”, sem a experiência consciente de um ser-eu. Ser-eu é vigília. Mas há pessoas que não se-são nem em vigília, e por isso seus olhos ficam abertos ou fechados para o mundo, mas sempre fechados para si. Se os olhos são o espelho da alma, os do insone são um reflexo permanente. Durante a insônia, não há nada mais cansativo do que pensar; pior do que pensar é brigar contra o pensamento, pois pensamos em não pensar, e por isso pensamos duas vezes. Ter insônia é então ser duplo: o que ordena, e o que não obedece: o que está-sendo e o que não deseja estar-sendo...

(Alexandre de Melo Andrade)

quinta-feira, 1 de abril de 2010

DEFESA DA POESIA (SHELLEY)

Um poeta é um rouxinol que na escuridão canta a sua própria soledade com doces gorjeios; os seus ouvintes são como homens fascinados pela melodia de um músico, que não se vê, e que sente que eles se comovem e enternecem, sem contudo saberem como ou porquê.
*
A poesia tudo conduz para o belo: exalta a beleza do que é mais belo e acrescenta beleza à mais deformada das coisas; casa o júbilo e o horror, a pena e o prazer, o eterno e o mutável; submete à união, sob o seu brando jugo, todas as coisas irreconciliáveis. Transmuta tudo quanto toca [...]

sábado, 13 de março de 2010

"A pouca realidade" - Fala, Ferreira Gullar!!!

Esta semana li um texto de Ferreira Gullar na Folha de S. Paulo (7 de março), que achei por bem compartilhar. O poeta e ensaísta questiona os rumos tomados pelos organizadores da próxima Bienal de São Paulo. No evento, serão exibidos filmes de ficção que tratam da realidade política, econômica e social, o que denota uma nítida perda do sentido artístico sempre inerente à Bienal, em detrimento de uma mostra da "vida real". Segundo Gullar, "O realismo do passado representava a realidade; o de agora mostra-a". Mesmo quando Coubert apresentou ao público francês as telas "realistas", o que estava em jogo era uma leitura, ou melhor dizendo, possiblidade do real, e não uma fotografia dele, como querem no evento paulistano. Gullar, em seu texto, passeou por vários artistas plásticos, dos realistas aos impressionistas, dos dadaístas aos cubistas etc, mostrando que "A arte existe porque a realidade não nos basta", e que "copiar a realidade é chover no molhado". O mundo em seu sentido literal é já conhecido por todos, e sua retratação nada acrescentaria aos nossos sentidos. A arte, por outro lado, traz "um deslumbramento a mais no mundo". Contentar-se apenas com o que é permitido à visão e ao tato físicos é, sem dúvida, renegar a capacidade do homem de transfigurar e ou mesmo transcender o mundo concreto, alcançando uma percepção mais depurada de si mesmo e do que nos circunda. Copiar o mundo é informar, dizer o que é notório, constatar o que é óbvio; fazer arte é desautomatizar, desfazer as evidências e despertar a imaginação.  Bastar-se com a realidade é assumir que haja um controle rigoroso sobre o mundo e que existe apenas um juízo definitivo acerca de tudo.

sábado, 6 de março de 2010

SONHAMOS COM VIAGENS ATRAVÉS DO TODO CÓSMICO: ENTÃO O UNIVERSO NÃO ESTÁ DENTRO DE NÓS? AS PROFUNDEZAS DE NOSSO ESPÍRITO NÓS NÃO CONHECEMOS. - PARA DENTRO VAI O MISTERIOSO CAMINHO. EM NÓS, OU EM PARTE NENHUMA, ESTÁ A ETERNIDADE COM SEUS MUNDOS, O PASSADO E O FUTURO.

NOVALIS. Pólen; Fragmentos, diálogos, monólogo. Trad. e notas de Rubens R. Torres Filho. São Paulo: Iluminuras, 1988.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Esta semana passarei por exame de qualificação de doutorado, na UNESP de Araraquara. Meu trabalho, intitulado A transcendência pela natureza em Álvares de Azevedo, proporciona uma discussão a respeito da construção de um universo fugaz criado pelo poeta em suas poesias, passando pela experiência estética da natureza em suas diversas manifestações devaneantes. Não vou resumir o trabalho nem falar sobre a elaboração dele, o que me ocuparia o tempo em demasia. O que me motivou a escrever hoje foi o entusiasmo por ter desenvolvido um trabalho com tanto prazer e satisfação. Todo trabalho crítico requer tempo, paciência e profunda reflexão, ainda mais por se tratar de uma tese de doutorado, onde o grau de originalidade é exigido... Quando iniciei o mestrado, em defesa da poética do mesmo autor, não imaginei que ficaria com Álvares de Azevedo por tanto tempo. Motivado pelo poeta, passeei pelas paragens de vários romantismos, de onde extraí conhecimentos que vão muito além daqueles expressos nas linhas da tese a ser finalizada. Acredito que antes do discurso crítico, há uma intersecção entre o autor e o leitor, provocada pela sensibilidade... É preciso "entrar" na obra literária, pois só assim será possível distanciar-se dela para dizer aos outros o que se observou. Considero realmente difícil dizer de uma obra sem antes fazer uma "entrada subterrânea" nela, deleitando-se com as formas abertas por ela aos nossos sentidos. O que move o trabalho do crítico não é apenas a curiosidade - como o seria no caso de um jornalista ou mesmo um cientista - mas a extrema necessidade de falar sobre a obra, de compartilhar os segredos da escritura literária e de nos revelar através dela. Meu trabalho não está pronto, ainda resta escrever um capítulo que me tomará um bom tempo após o exame de qualificação. Porém, já consigo ver claramente o caminho que trilhei até aqui na defesa desse ideal panteístico da poesia do jovem Álvares de Azevedo, e não tenho dúvida de que o que "desocultei" de sua obra me proporcionou momentos de intensa reflexão e de ousadia crítica e poética. Ressalto que meu trabalho e a produção intelectual realizada neste últimos três anos contaram com total apoio de meu orientador - verdadeiro guru intelectual - Antônio Donizeti Pires, a quem faço um enorme agradecimento.