Este blog, sob responsabilidade de Alexandre de Melo Andrade, objetiva o contato com obras e teorias literárias, publicadas e inéditas, permitindo o diálogo entre os estudiosos desta arte e o acesso a estudos diversos abarcados por este universo.
(Mikel Dufrenne)
sábado, 30 de maio de 2009
Mãos
Mãos trêmulas, in seguras
Mãos pequenas de um amor
Mãos suaves, macias
Mãos de mãe
Mãos que socorrem e são socorridas
Mãos que preparam o alimento
Mãos que gritam socorro
Mãos que seguram a queda
Mãos que acalentam e acariciam
Mãos que pedem carinho
Mãos que se amam e se perdem
Mãos que se conectam com o mundo
Mãos que escrevem, que rabiscam coisas certas e corajosas
Mãos que se surpreendem
Mãos que escovam a boca da imundície do mundo
Mãos que seguram sujeira
Mãos que estão imundas
Mãos que são imaculadas
Mãos cansadas de tanto sofrer
Mãos que abrigam e que espancam
Mãos que não têm nada a dizer
Mãos que caminham sem pressa
Mãos que limitam o tempo e mãos que não tem pressa do tempo passar
Mãos belas e frias
Mãos frias e belas
Mãos que se despedem
Mãos que sofrem com a despedida
Mãos que já não sabem viver
Mãos que se perdem e
Mãos que se encontram
Mãos que estremecem
Mãos que se desanimam antes mesmo de tentar
Mãos amigas, calorosas
Mãos que têm muito amor
Mãos que riem e se alegram
Mãos que só andam aos pares
Mãos que estão cansadas da solidão
Mãos que não têm mãos
Mãos que não sabem o que fazer com as mãos que têm
Mãos elegantes e sacanas
Mãos dedicadas e humanas
Mãos que têm tudo a dizer
Mãos que dizem pouco e
Mãos que dizem qualquer coisa só por dizer
Mãos atoladas de serviço
Mãos que fogem do compromisso
Mãos que se esquecem de se lavar
Mãos que são solidárias
Mãos que são encarceradas
Mãos que não fizeram nada mas têm a sentença de ser
Mãos ofegantes
Mãos desprovidas do calor das mãos
Mãos irritadas
Mãos mal-amadas
Mãos “that just speak in English”
Mãos que não conseguem
Mãos que acham que não podem chegar lá
Mãos que prendem os cabelos
Mãos que coçam a careca
Mãos que escondem a face
Mãos que dão a cara a tapa
Mãos que lutam e que suportam a batalha
Mãos indiferentes
Um dia seremos todos mãos-túmulo ou mãos-rosas
E a única certeza que teremos é que estaremos prestes a passar
E o que teremos feito então com as nossas mãos?
09/julho/2008
quarta-feira, 20 de maio de 2009
25/05 – 19h30 – Experiência e pobreza modernista
Prof. Matheus Marques Nunes
21h10 – Turismo Educacional
Prof. Marcos Roberto da Silva
26/05 – 19h30 – O que é o pós- modernismo?
Profª. Ana Paula de Oliveira
21h10hs – O legado da Modernidade
Prof. Cláudio Henrique Bauso
27/05 – 19h30 – Quando as leituras se entrelaçam
Profª. Maria do Carmo Belizário
21h10 – Analogia e ironia: romantismo
Prof. Alexandre de Melo Andrade
28/05 – 19h30 – Música e modernidade
Prof. Cleber Sdern
21h10 - Apresentação de trabalhos dos alunos
29/05 – 19h30 - Sarau de Letras (SESC)
pães
o dia se inicia mudo
morre calado.
esteiras apócrifas estalam no possível entardecer.
a ilusão matinal cheira a centeio
traz as velhas lembranças do pesadelo polido de ontem
o ritmo dos meus pés descalça meu coração
morto selvagem a artéria equilibra meus óculos
sem fundamentos, todo nascimento gera a morte
plantemos o trigo.
Conto, de Ana Carolina Bianco Amaral.
sentada na velha cadeira de vime escuro centeio observo o pequeno objeto abstrato que vinha debaixo da velha porta grafite. Seu reflexo instantâneo surtia devaneio nas minhas íris amarelas amendoadas. Um caminho para a descoberta, o destino e a morte.
Vire-me monstruosamente e observei insetos dos quais designo peçonhentos. Não que uma humilde barata possuísse veneno letal, mas a morte impactante entre suas entranhas e meus óculos esfumaçados era digna de alcova campestre. Num determinado período hesitei entre o spray em droga e o chinelo. A noite era morna e adocicada, a ânsia translúcida me aludia covardemente. As chinelas de domingo me pareciam, nesse advento, inferiores aos meus pés, desisti de calçá-las.
Covarde de mim, covarde de mim. A luz tentava parir sua candura, somente o escuro me adornava. Um atroz arrepio percorria meu corpo frouxo, polido. Sentia minhas unhas rouxear-se num convento inaudito do meu desespero. Minha pele sempre albina copulava negra com o espaço congênito do meu quarto. As irmãs íris, outrora amarelas, cogitavam-me outro segredo inconfessável. A transformação começara. As veias, tão azuis, saltavam dos meus labirintos. Meus lábios apeteciam num tom róseo ruge de natal. Os cabelos se desprendiam, automáticos, do laço de fita e banhavam, rouxos, meu lombo. Aludida com os tortuosos desejos imaculados, fixei-me na sombra. Colinas suíças debatiam no estômago que se rasgava em meu ser. Dor pungente meia da calça. Peremptório suor hidratava a pele negra. Somente um pensamento “de agora então serei barata”. A mutação terminara. Ao acender a luz, o espelho selou minha fisionomia. Por detrás da sombra murcha daquela velha porta, minhas antenas captavam o estrelado do céu. Pegajosa me continha na minha condição. Virei-me. Por detrás daquele reposteiro sombrio e ensolarado estava o rosto de uma doce menina, e no chão, uma fotografia rasgada da mesma face.
Ana Carolina Bianco Amaral.
sábado, 9 de maio de 2009
Meu caro amigo
Com péssima disposição de espírito e num dia chuvoso, enervado, escuro como breu venho responder-lhe à sua longa carta. Começo por lhe pedir perdão de em troca lhe enviar poucas linhas - “poucas e mal alinhavanhadas linhas” lugar-comum que, neste caso, exprime bem a verdade.Não tenho de forma alguma passado feliz nesta terra ideal. Tenho mesmo vivido ultimamente alguns dos dias piores da minha vida. Porquê? indigará você. Por alguma coisa- é a minha resposta. Ou antes:por mil pequeninas coisas que somam um total horrível e desolador. Olho para trás, e os tempos a que eu chamei desventurados, afiguram-se-me hoje auéreos, suaves e benéficos. Diante de mim, a estrada vai pouco a pouco estreitando-se, emaranhando-se, perdendo o arvoredo frondoso que a abrigava do sol e do vento. E eu cada vez mais me convenço que não saberei resistir ao temporal desfeito- à Vida, em suma, onde nunca terei lugar.Vê você, eu sofro porque sinto próxima a hora em que o recreio vai acabar, em que é forçoso entrar para as aulas. Talvez não me compreenda nestas palavras, mas eu não tenho paciência nem força para lhe falar mais detalhadamente. Em suma, não creio em mim, nem no meu curso, nem no meu futuro. Já tomei várias decisões desde que aqui estou e um dia senti, na verdade senti cheio de orgulho, que me chegara finalmente a força necessária para desaparecer. Ilusão dourada! Na manhã seguinte essa força remediável tinha desaparecido. E então resolvi voltar para Lisboa, sepultar dentro de mim ambições e orgulhos. Mas não tive também força para o fazer. Sorria-me Paris e, lá ao longe, um fiozinho de esperança que todas as aspirações dentro de mim me fizeram ver como um facho resplandecente. Desembriagado hoje, porém, observo desolado quanto esse fio é ténue. Mais uma vez fui fraco em resumo- adiei, e sempre boiando cá vou vivendo.Depois, no meio da minha angústia, pequeninas coisas se precipitam a exarcebá-la: A saudade de todas as coisas que vivi, as pessoas desaparecidas que estimei e que foram carinhosas para mim. Mas não é isto só: sofro pelos golpes que tenho a certeza hei-de vir a sofrer, como por exemplo, a morte fatal e próxima de algumas pessoas que estimo prigundamente e são idosas. E sofro ainda também, meu querido amigo, por coisas mais estranhas e requintadas- pelas coisas que não foram. De forma que numa tortura constante tenho vivido nestes últimos dias e cheguei mesmo a chorar uma noite- o que há tanto, desde os quinze anos, não me acontecia.(…)
Grande abraço do seu verdadeiro amigomuito obrigadoMário de Sá-Carneiro.
Excerto de carta de Mário de Sá-Carneiro a Fernando Pessoa, incluída no livro “Mário de Sá-Carneiro Correspondência com Fernando Pessoa (Volume I)”
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Pessoal, aqui segue um relato de como me apaixonei pela leitura. Como nunca contei isso a ninguém, resolvi compartilhar com vocês:
Aos 7 anos de idade, morava numa fazenda aqui da região de Ribeirão Preto chamada Santa Mônica, e a escola onde estudaria ficava no Córrego Grande, uma outra fazenda vizinha. Eu, meu irmão e dois vizinhos andávamos mais ou menos um quilômetro e meio a pé e esperávamos na beira da estrada pela professora que vinha de Cravinhos; ela nos pegava com sua Brasília e então descíamos até a escola. No primeiro dia, tomei leite tão depressa que minha irmã até se assustou; é que eu estava entusiasmado à espera desse mundo novo que se descortinaria. No começo, achei que não conseguiria aprender, as letras me vinham como códigos indecifráveis; elas eram muitas, e eu pouco. A cartilha “No Reino da Alegria” trazia aquele sistema tradicional de junção silábica, e eu tinha medo dessas letras que se uniam a outras para formarem palavras. Nos primeiros dias, minha mãe me perguntava se eu estava aprendendo, e eu dizia que sim, pois não queria decepcioná-la. Certo dia, como numa epifania, consegui ler a primeira lição da cartilha, e percebi que o mesmo sistema utilizado para a formação de uma sílaba era utilizado para outra; dessa forma, compreendi que bastava identificar a sonoridade da consoante para saber pronunciá-la com qualquer vogal. A descoberta foi tão repentina que numa tarde, andando na carroça da fazenda com meu irmão e com a cartilha entre os joelhos, pude lê-la quase por inteiro, para espanto dele e de mim mesmo. Eu estava maravilhado; já não eram apenas letras que entravam pelos meus olhos, mas palavras inteiras, frases completas. Eu não conseguia parar de ler. Meus irmãos me pediam o tempo todo para ler, inclusive letreiros que apareciam em produtos e anúncios. Descobrindo a palavra, eu descobria um universo de possibilidades. E como isso me satisfazia! Um ano depois, estando na segunda série do grupo, outra professora nos pegava (agora era com um Fusca branco) e nos levava até o Córrego Grande. Eu sentia falta de ler outras coisas, a cartilha não me bastava e eu me cansava dela. Nós não tínhamos livros; apesar de alfabetizados, meus pais e meus irmãos não manifestavam interesse por leituras. Foi então que desenterraram lá em casa uma Bíblia do Novo Testamento que uma ex-professora do meu irmão havia nos vendido quando morávamos em outra fazenda. Belica – assim ela era chamada –, muito religiosa, quisera, na ocasião, que a família de cada aluno portasse uma Bíblia. Comecei a lê-la às tardes e à noite. Porém, eu não a lia com interesse religioso, o que me encantava nela era a narrativa em si, a história de um personagem chamado Jesus Cristo e sua trajetória de vida. Eu criava imagens mentais, devorava as páginas e acompanhava o enredo com expectativa. Meu interesse pela Bíblia era ficcional, eu não pensava na veracidade do que lia, e isso nem me interessava. Foi dessa forma que descobri meu gosto por “estórias”. No ano seguinte, quando acabava de completar 9 anos, nós nos mudamos para Cravinhos, e pela primeira vez eu estudaria numa sala com muitos alunos, numa escola grande... e tudo era realmente grande demais, assustador, a ponto de eu não querer mais ficar na escola. Minha mãe me transferiu, então, para o colégio onde meu irmão estudava, lá eu me sentiria mais seguro. Descobri logo que havia uma biblioteca na cidade, e eu fui até lá para conhecê-la. A primeira vez que entrei foi inesquecível, eram muitos livros olhando para mim distribuídos em prateleiras várias, eu nunca tinha visto outro livro que não fosse a tal Bíblia sagrada ou a cartilha. Timidamente, percorri os corredores. Sentia um cheiro de papel envelhecido que brotava do fundo dos livros; eu os pegava nas mãos, abria suas páginas – muitas até amarelecidas – e ficava folheando-as, embebido pelas novas estórias que surgiam através delas. Era muito difícil decidir pelo livro que queria ler; acho que se pudesse, leria todos de uma só vez. Eu levava para casa livros de Maria José Dupré, Pedro Bandeira, Clarice Lispector, e até de escritores estrangeiros que eram traduzidos no Brasil. Tinha uma semana para devolvê-los, porém antes do prazo eu já os trazia de volta. Confesso que ficava um tanto envergonhado, pois a bibliotecária – uma senhora um pouco gorda, de cor clara e cabelos louros – me via chegar e mostrava um breve e simpático sorriso, como quem diz: “Olha ele aí de novo!”. Eu não conseguia ficar uma semana sem aparecer por lá, pegava um livro já sabendo o que queria para a semana seguinte. Os livros ficavam me esperando, queriam ser lidos por mim, e eu tinha o tempo todo do mundo para saboreá-los. Em casa, enquanto lia um, deixava outro à espera, e isso me causava certa euforia, era um encantamento só com a idéia de que havia outro por ali, sobre a mesa, sobre o sofá, sobre a cama... Eu me deparava com eles, às vezes por querer, outras vezes sem querer, e eu me espantava de vê-los assim, era como uma refeição deliciosa que esperava para ser deglutida, de forma que só de vê-la já ficamos com aquela sensação de água na boca. Esses sentimentos eram a minha “felicidade clandestina”, tal qual eu li muitos anos mais tarde no conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector. Nunca mais parei de ler. Acho que quem descobre o encantamento da palavra não consegue se divorciar dela. Meus livros foram meus maiores amigos da infância, com eles eu pude viajar por múltiplos caminhos apenas deitado em minha cama ou na poltrona da sala, eles me permitiram desenvolver a capacidade de introspecção, tão rara às crianças e adolescentes de nosso tempo. Até hoje, quando vou a uma livraria, perco-me no tempo e fico folheando as páginas dos livros, sentindo o cheiro que brota delas, encantado com o mundo que jorra dali. Nestes momentos, percebo em mim a presença daquele menino de 7 anos que, por falta de livros, encantava-se com a narrativa bíblica e depois sentia o perfume dos livros velhos e amarelos da biblioteca que lhe abriam o universo da imaginação. (Alexandre de Melo Andrade)
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Naquele canto
Há um menino
Sozinho.
Ele chora, implora.
As lágrimas correm,
Descem seu rosto
Feito um mar atormentado.
Seu coração está apertado.
Os sentimentos em uma mistura
Formaram um laço de desespero
Tristeza, dor, aflição,
Pavor, medo e tentação.
O mundo roda,
Aquele burguês vai e volta.
Mas o menino continua parado
No mesmo estado.
Oh! Menino inocente!
Chora!
Chora!
Chora!
Lamente!
Mas lembre-se,
Que o culpado do seu choro
É aquele que discursou,
Que convenceu,
Que iludiu, seduziu.
Esse maldito,
Não quer saber de sua situação.
Não quer saber que a sua cama
É o chão.
Malditos! Malditos!
Todos aqueles que fingem.
Hipócritas!
Encenam uma comédia
Pois suas vidas são máscaras,
Escondem do mundo
E tem medo da vida.
Passam,
Sobre o menino
E nada fazem
Nada querem fazer
Porque não querer perder.
Perder? Sim perder.
O poder.
A postura falsa,
Que aceitaram
Que o escolheram
Para cada um de vós.
Grita menino!
Quem sabe alguém não escuta?Quem sabe o vento responda?Quem sabe o destino muda?Tente! Mais uma vez.
O seu choro
Pode convencer alguém,
E quem sabe
Sua história não seja outra.
O passado você não irá apagar,
Mas o futuro poderá mudar.
Tente! Chore! Grite!
Um dia você será atendido
Mesmo que pelo cruel destino ...
(Alex Moretto - aluno do curso de Letras da FABAN)
domingo, 19 de abril de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
quarta-feira, 25 de março de 2009
Noite fria
Noite escura
Escura como a alma
Alma que ama
Que ama intensamente
Ser insatisfeito
Ser imperfeito
Ser repleto de desejos
Lágrimas em vão
Horas perdidas
Só resta solidão
É a vida!
MINHA TERRA
Minha terra tem:
Crianças inocentes
Jovens inteligentes
Adultos surpreendentes
Idosos experientes
Tem frevo e maracatu
Feijoada e vatapá
Carnaval e festa junina
Dias ensolarados e noites de luar
Tem tragédias e chacinas
Desigualdade e injustiça
Crimes e abusos
Maldade e preguiça
É uma “bagunça” de cores
De amores
De humores
De horrores
Minha terra é uma mistura
Cheia de cultura
Uma loucura
Uma loucura!
Noites escuras e iluminadas de ternura
Tanta felicidade, agora tristeza
Me traz você em pensamentos de momentos
Cada vez mais distantes.
Morro por você, vivo de saudade
Ao lembrar de um passado ainda presente...
Ah! Se eu pudesse reviver nossos momentos,
Lacrados no fundo da mente como se fossem morte.
Oh! Covardia, que me dá coragem de procurá-lo
E dizer o quanto você ainda é importante.
Que ainda amargo saudade das doces lembranças.
Chamá-lo de amor, chamá-lo esperança.
Que mesmo de longe, o sinto perto de mim.
Pois doce é a vida, amarga é a distância.
SEDUÇÃO
Noites estreladas
Insônia, fascinação
Mulata faceira
Pura sedução
Calor ardente
Perturbação!
Desejo, volúpia, atração
Sentimento galopante
Num vai e vem estonteante
De um sonho de verão.
sexta-feira, 20 de março de 2009
dourados aspargos que cinderela cosia na manhã seguinte. Doirados reflexos esticavam-se dos seus olhos tenros ao ver a almiquia vegetal. Esticou o vestido partidário a um mendigo de amor. A agulha torcia as voltas emblemáticas da linha senil cor de areia. A agulha percorria a parte externa do artesanato, fio a fio, xis a xis perpendiculares esteiras de linha rente. A agulha inebria exausta fixava-se, respirava, deglute e vomitava. A agulha tal qual brinquedo de locomoção natalino quiçá findasse seu curso. Cansada cinderala abre a torneira da pia lamaçal. Mãos conchas retém o líquido que purifica, escravo de vida e morte, impulsiona o jogatino veneno nas tez oleosa do seu rosto. Ascende suas pálpebras, um espelho a temia. A imagem voltavam o vestido partidário, agora declinado da missão de cobrir o mendigo. Pedregulhos e estiragens cambaleam os dedos inóspitos da sereia. Curvas de caminhão de carga sobrecarregada. Outra imagem - jovial segredo adolescente desquitou-se sem auxílio de advogados.
BELEZA INTRUSA
Azul êxul,
Húmil,
Noivado
No rincão
Do branco
Núbil.
Pincelada
De um céu
Por terminar.
Ou ainda,
Céu suave
Coberto de nuvens.
Esgar
De intrusa beleza
Que quer viver
Em excesso de luz.
Arte ciência,
olhar experiência,
face ameixa,
na boca o acre-doce
revelando o matutino, o vespertino,
o noturno.
(Noturno — às vezes — tão soturno)
Três dimensões que trazem à baila
todo um palmilhar norteado de venturas,
desventuras,
que o viver não tem como frear...
Maria do Carmo Belizário.
Cumplicidade
Alheios ao mundo — sinto seu cotovelo junto
ao meu.
Ali — tranqüilos a limpar os peixes
entre as memórias do primeiro encontro... Olhar...
Cheirando a peixe toco seus cabelos
e você... Afável... Galhofeiro a falar de suas aventuras,
pescarias
como um grande menino esquecido do mundo.
No silêncio aconchegante da cozinha dividindo o espaço:
Eu e Você.
Você e eu entre a fala, às vezes, o silêncio
analisando nossas histórias enquanto se limpa
os peixes...
Longas histórias... Alegrias... Desventuras...
Passado que se fez amadurecer e hoje
sorrimos descontraídos no pequeno espaço,
em que nos acotovelamos a limpar os peixes.
De repente — estes são postos de lado — as
mãos se entrelaçam — as facas ficam sobre a pia
e os peixes se perdem em meio as escamas... Maria do Carmo Belizário.
Como arrumar as gavetas?
Separar as espécies:
à direita o tempo da paz,
alegria,
amor...
À esquerda:
a saudade,
a tristeza,
a dor...
Maria do Carmo Belizário.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Espírito sombrio, outrora afeito à luta,
A esperança, que um dia te instigou o ardor,
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
Cavalo que tropeça e cujo pé reluta.
Conforma-te, minha alma, ao sono que te enluta.
Espírito alquebrado! ao velho salteador
Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;
Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!
Prazer, da trégua a um coração desfeito em dor!
Perdeu a doce primavera o seu odor!
O tempo dia a dia os ossos me desfruta,
Como a neve que um corpo enrija de torpor;
Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,
E nem procuro mais o abrigo de uma gruta.
Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?
Porém, o poema segue um ritmo embalado pela predominância das rimas pobres, seguidas de intercalações emparelhadas e interpoladas.
A princípio, o eu lírico faz a apresentação de um “ser” monstruoso desconhecido. Para tanto, há uma constatação metafórica que sonda a figura misteriosa: a perca da esperança comparada a um cavalo, uma impressão que veio devagar, a “galope”. No entanto, é viável ressaltar que este animal fundido a esta esperança é doente, medroso, que hesita, mostrando uma fraqueza esperançosa. Além do sentimento, outro fator humaniza o cavalo, ele ao invés de cavalgar com as patas, foge ao comum e assume um “pé”, o que aproxima o animal à figura humana:
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
Cavalo que tropeça e cujo pé reluta.
A Esperança, personificada, remete à imagem de uma musa que instigava a chama criadora do poeta e que não o move mais. Ela deixa de cavalgar a alma do poeta e o cavalo – signo que remete à virilidade e à impulsividade, agora lida com a perda, não apenas da esperança, mas também de sua essência.
O “amor que não seduz o velho salteador” evidencia o desinteresse do eu, numa imagem que nos remete a um D. Juan que perdeu a sua razão de ser.
A perda da razão de ser acentua-se a partir do verso:
Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!
A música, que para os simbolistas tinha uma comunhão artística com a poesia, cala-se, silenciando o sentido da vida.
Entretanto, o eu lírico desfruta de um coração partido, desta falta de esperança, da morte da alma, do pessimismo constante e da anulação da vida. Ele tenta se conformar com a sina que o cerca, mas com o passar do tempo, torna-se difícil permanecer em uma existência sem perspectiva, tanto que a sua matéria para perante a tanta dor e mal estar:
Espírito alquebrado! ao velho salteador
Já não seduz o amor, nem tampouco a disputa;
Não mais o som da flauta ou do clarim se escuta!
Prazer, da trégua a um coração desfeito em dor!
É o desassossego, a angústia pertinente, que ao mesmo tempo leva-o à exaltação, transporta sua existência ao puro vazio. O gosto pelo nada, característica enfatizada no momento Romântico, veio a Baudelaire como um anseio ao novo. A saída é propor um fim para iniciar a vida. Apresentar o Spleen, o tédio fatal da vida para construir novidades, para retomar e adquirir esperança de viver, encenar a vida cotidiana e moderna como exemplo de (não) existir. Tanto que o eu lírico se transporta ao posto de telespectador de si mesmo, que não se esconde no plano que não o agrada, conforme consta no seguinte verso:
Contemplo do alto a terra esférica e sem cor,
E nem procuro mais o abrigo de uma gruta.
Essa separação do universo em mundo contemplado e eu - observador é herança daquela ironia romântica, que prenunciava, pela divisão e pela cisão do ser, o niilismo moderno. Rompe-se o sentido de unidade entre o eu e a natureza, para impor-se uma visão de mundo fragmentada pela consciência. A própria separação que o eu lírico descreve entre o passado prazeroso e o presente amargo nos leva a entender que o poeta cria uma ruptura temporal que assinala a morte e a “nidificação” do ser.
Mas este é um processo lento, tanto que há alguns versos isolados, relatando a partir de suas formas, a passividade de expectativas:
Perdeu a doce primavera o seu odor!
O tempo dia a dia os ossos me desfruta,
Como a neve que um corpo enrija de torpor;
Em determinado instante, dá-se a impressão que o eu lírico é seduzido por uma realidade negativa, que caminha em função do nada, o que não é o caso. Ele está enojado por uma existência rotineira e medíocre, que através de uma exatidão melancólica, busca um espaço liberto:
Vais levar-me, avalanche, em tua queda abrupta?
Além disso, o eu lírico questiona a morte, carregando ansiosamente, com ironia, o desejo de ser consumido por ela.
O que é o amor?*
O amor é sonho?
O amor é dor?
É apenas sentimento?
É grande? É pequeno?
Branco? Negro?
Acaso é liso?
Ou áspero?
Não sei por certo,
Só sei que quando vem
Realiza mudanças
Faz de um adulto uma criança.
Não escolhe idade, classe ou cor.
Quando vem quer quebrar as barreiras
Não enxerga as aparências,
Mas penetra o profundo, o íntimo, o âmago.
É como um anestésico,
Deixa a pessoa boba,
Suspirando, sorridente
Babando cor- de- rosa.
Amolece os corações de pedra,
Tornando-os tão macios
Como a fina seda.
No entanto,
Para que saber o que é o amor?
Se eu posso senti-lo e vivê-lo!
Experimentar do seu mel
Sentir o pedaço do céu.
Enquanto alguns se preocupam com definições
Vou vivendo e aprendendo,
Porque o amor é subjetivo
E cabe a cada pessoa interpretá-lo
Do modo como quiser.
(Carlos Eduardo de Brito Aragão)
*Poema premiado com o 3º lugar no XII Concurso de Poesia Moderna do Sindicato dos Comerciários
Chora Amazônia*
Chora Amazônia!
Derrama o teu pranto sentido
Lamenta tuas árvores caídas.
Teu verde, tua sombra, tua natureza.
Oh, Amazônia!
Solta a tua lágrima de dor
Grita pelos teus animais,
Que morrem a cada dia:
Aprisionados, feridos, torturados, contrabandeados.
Sim, Amazônia
É grande a tua dor!
O homem, que deveria ser “humano”,
Torna-se o mais cruel dos animais.
Ferindo o teu chão
Roubando a tua paz.
Reza Amazônia!
Ora ao Criador
Pela consciência do homem,
Para que volte a si
E pense em seus filhos
Que poderão ter um futuro incerto.
Fala ap pé do ouvido de cada criança
Para que não repitam os erros dos pais,
Aumentando a chama da esperança.
Enquanto o progresso avança,
Tua vida, Amazônia, vai se acabando.
E o homem, cego pela ambição,
Destrói a si próprio.
Ainda há tempo, Amazônia,
De mudar esse quadro.
Mas tem que ser agora,
Porque quando a última árvore cair
E a última gota de sangue
Manchar o teu solo,
Aí será tarde demais.
(Carlos Eduardo de Brito Aragão)
*Poema premiado com o 2º lugar no XI Concurso de Poesia Moderna do Sindicato dos Comerciários
Quem sou eu?
Sou menino brincando com o tempo
Como a folha que brinca com o vento
E voa nos campos da vida.
Nessa terra de sonhos perdidos
De piratas, fadas e lendas,
Ergo meu castelo encantado
Pra salvar a Rapunzel.
Sou herói que voa no céu
Pra defender a cidade do mal.
Super-Homem
Com visão de raio-X
Sou peralta, sou feliz.
Gosto de correr
Brincar de esconde-esconde,
Dançar canções alegres
Comer doces e balas.
Vou à escola
Aprender o bê-á-bá.
Preciso estudar e brincar
Sou pequeno demais para trabalhar.
Sou a semente
Que germinará no futuro.
Quem não for como eu
Não entrará no Reino de Deus.
Já sabe quem sou eu?
Sou criança, sou a esperança,
Sou o futuro feliz.
Sou anjo na terra
Sou o futuro do país.
(Carlos Eduardo de Brito Aragão)
Mensagem ao professor
Mestre, educador.
Pai das letras, professor.
São nomes diferentes
Desse grande construtor.
Suas palavras são ferramentas
Que transformam cada aluno
Em sementes de saber.
Para que no futuro
Frutifiquem doutores.
Como é belo observar
Toda dedicação!
Todo amor depositado
No movimento do giz.
Palavras que surgem na lousa,
Olhos que brilham
Vendo o aluno que aprendeu.
Querido professor,
Se hoje posso escrever
Devo a Deus e a ti.
Lembro-me do a-e-i-o-u,
Das letras que se juntaram
Formando palavras.
Das palavras surgiram versos
Dos versos surgiram poemas.
E agora, do meu coração,
Surge uma palavra simples
Cheia de gratidão:
“OBRIGADO!”
(Carlos Eduardo de Brito Aragão)