Este blog, sob responsabilidade de Alexandre de Melo Andrade, objetiva o contato com obras e teorias literárias, publicadas e inéditas, permitindo o diálogo entre os estudiosos desta arte e o acesso a estudos diversos abarcados por este universo.
(Mikel Dufrenne)
domingo, 4 de outubro de 2009
Todo poeta acredita nos sonhos;
Achando que podem realizá-los;
Eu também acredito nos sonhos;
Mas jamais quererei realizá-los.
Pois quando os tornamos tão reais
Deixam assim de sê-los dos sonhos;
Passando a ser uma parte mais
De sua realidade em banhos.
Então, sonhos têm que ser dos sonhos;
A realidade da realidade;
Nós tanto dessa quanto daquela.
Viver assim entre as duas faz
Com que nós não morramos buscando
A realidadescontenta, ou sonhos.
(Michael Bonadio)
terça-feira, 29 de setembro de 2009

Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabando ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a idéia
de usar as minhocas
numa pescaria
para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.
Onde será que foi parar?
Não sei
nem quero me preocupar com isso.
Vou mais é pescar.
(José Paulo Paes)
A felicidade se fez ausente.
Resta a tristeza a este demente.
As flores no jardim estão a murchar.
Minha amada, delas não estás a cuidar.
Acendo um cigarro para aliviar a solidão.
Pouco adianta, é grande a dor no coração.
Anjos, não era este o momento de a levar.
Minha amada, contigo quero estar.
Todas as noites em meus sonhos tu estás.
E nele o seu lindo rosto posso tocar...
Minha amada, continue a me esperar.
E os dias passam lentamente.
Os pássaros tristes nas árvores estão a cantar.
Minha amada, por toda vida vou te amar.
(Edilson dos Resis)
SOLIDÃO
Na vida não fui poeta
simplesmente um sonhador,
que vivenciou toda dor
causada pela perda
de um grande amor.
Se hoje os meus olhos
inundados por lágrimas estão,
é que magoado se fez
o pobre coração,
entre tanta ilusão.
Sem que me cuidasse,
deixei que os meus sonhos
de amor um anjo levasse;
e quando fui perceber
estava sem motivos para viver.
Aquelas lindas maçãs
vermelhas como as rosas
que um dia beijei,
hoje sei que jamais as verei
e em seus seios não mais repousarei.
Hose a solidão se fez!
Uma vida errante...
Não me tornei amante;
e sempre fiquei a acreditar
que um dia fosses me amar.
(Edilson dos Reis)
“Perante estas eras sombrias,
Açoitadas por ventanias;
Terrível, sombrio, maldito,
É aquele que agora invoco!
“Meu coração palpitante,
Num sofrimento gritante,
Urra um nome sombrio,
De tom maldito, horrível,
Que em vão tento esquecer...
“Tua face me recorda
De tempos há muito perdidos,
Que, no Limbo esquecidos,
Aplacam meu sofrimento...
“Um som agourento
Recorda-me do terror
E uma vez mais sinto a dor
Neste corpo funesto,
Nesta face que detesto!
“Ah, se o ódio aplacasse,
E essa dor findasse,
Num simples enlace,
Arrancaria minh’alma!
“Mas ainda assim sofro,
E pelo Inferno corro,
Desesperado...
“E aqui me encontro,
Tão desolado, abandonado!
E ainda sinto a dor, o terror!
“PÁRA DE ME FAZER SOFRER!
EU SÓ DESEJO MORRER!
“Mias falanges rangem
Teu retrato apagado
Pelo Tempo açoitado
De modo tão irado...
“Tua face me recorda
Daquilo que em mim mora
Sem nunca morrer...
“Mas meu corpo recusa,
E minha alma acusa
De que era em vão...
“Passo a detestar
E a tudo odiar,
Para que uma vez mais
Possa descansar...
“Mas minha mente recusa,
E novamente de mim abusa,
Pois me volta a lembrar...
“Como era doce teu toque,
Que em minha pele agora morre,
Em puro desespero...
“Sonho uma vez mais contigo,
Aqui, neste frio jazigo,
Em meio à podridão...
“Rasgo-me novamente
E ao longe eu lanço
Num maldito balanço
Meu coração dormente!
“Eu quero apenas parar de sofrer!
E seu amor eu hei de esquecer!
Maldita traidora!
Maldita! Maldita!
Que apodreças em sua pose
De doce senhorita!
Pois ainda é apenas carne!
“Te odeio! Te detesto!
E por isso ao Abismo peço
PARA QUE MORRAS SOFRENDO NO INFERNO”
(Conde Darkheart)
sábado, 19 de setembro de 2009
Ajuda-me a não me ser.
Ajuda-me a não te ser.
Ajuda-me a não lhe ser.
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
Ajuda-me a parar de ver.
Ajuda-me a querer ter.
Ajuda-me a poder fazer.
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
Ajuda-me a não me desesperar
Quando na noite não puder falar,
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
Ajuda-me a saber entender
O porquê de querer me socorrer.
Ajuda-me, Ajuda-me, Ajuda-me.
(Michael Bonadio)
(Michael Bonadio)
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Não me reconheço.
Não sou o mesmo.
Antes era um,
Agora outro.
Quem sou?
Não sei.
Tudo mudou.
Um calmo, esperançoso,
Simples,
Mas, ignorante, egoísta,
Buscava o topo dos sonhos.
Não sei o que aconteceu.
Será que foram as Letras,
O excesso de tudo?
O mundo novo?
Talvez foi a sensação?
Não entendo.
Perguntas? Respostas?
Procuro e não acho.
Mas, agora o outro atual
Elegante, pensante
Amante e diferente.
Busca um porquê.
No sei do quê.
Para quê?
Sente o vazio
E o completo.
O que acontece?
Especialistas também não entendem.
A dupla personalidade:
Uma humana animal
A outra humana racional.
Assim, como o meu vazio completo
São meus versos
Podem dizer o tudo ou o nada.
Assim é minha poesia
Complexa,
Simples.
Quem entende?
Sei lá.
(Alex Moretto)
sábado, 29 de agosto de 2009
Quando não quero enxergar o mundo,
tiro os óculos.
Caos.
Névoas, profusões de névoas turvam a visão...
A eterna tristeza está no recolocar os óculos:
mesmo querendo ver às claras,
as imagens distorcem,
são neblinas da visão...
À TOA
Pensando um verso bonito
não encontrei palavras.
Guardei o pensamento.
O pensar adormeceu.
As palavras adormeceram.
O verso ficou para depois.
E depois... é o indeterminado...
EMPÓRIO
As prateleiras vazias,
poeirentas, encardidas
têm resquícios de passado.
Não há arejar de sol nas tábuas
e as traças tracejam
traços no tempo.
As prateleiras (fantasmas)
apodrecem.
Os sonhos, o murmurar da vida
diluíram-se no pó.
Sobre as prateleiras inertes
minha sombra inútil varre
a sujeira das teias
trançadas no labirinto do tempo.
Poeira secular.
Nas prateleiras vazias
Minha alma dorme...
CRONOS
Dá-me um dia
para organizar
atos desatados.
Um dia só basta
para conversar
com o pensamento enlouquecido.
Um dia é o justo tempo
para falar de amor.
E nesse dia,
do nascer do sol
ao despertar das estrelas,
haverá um consenso de idéias
sábias e loucas, revelando-me.
Por um dia
é, foi, será
válido viver...
DESABAFO
A palavra rasga a alma.
Como lâmina cortante
Retalha o coração
E sangra.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
sem título
e o que se vê
centraliza todo
o espaço,
persiste,
sem moldura
ou título,
cravado em seu
axioma de ferro,
seu habitat supremo,
desqualificando tudo
com exata indiferença,
como um
prego na parede
detalhe
acontece que
ao perder o chão
passou a
observar os
pés e talvez
de tal modo
acercar-se da
minúcia
excedente
que melhor
se reconhece
no que cumpre
desaparecer
pormenor
se diante do desacerto
decidiu-se pelo óbvio,
talvez não tenha visto
o que à primeira vista
não se vê
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Um estranho amor,
assim como chegou se foi,
levou meus segredos tão discretos,
meu olhar de plenitude, meus sonhos,
meus mistérios que só com ele dividia.
Nada disso significou tédio ou fim do tesão,
de um sobressalto se começa a amar de novo
de outro jeito, com outro sentir.
Viver bem os amores que cruzam nossas vidas
é um ato de heroísmo.
Amar é como depois de uma caminhada árdua
ser docemente surpreendido pela descoberta do outro,
e ter o amor como medida, sempre!
mmadalena
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
ARESTA
Que estranho
nós dois
sempre na aresta
do ontem, na certeza do ontem
na aresta
do amanhã, na possibilidade do amanhã.
No hoje não!
POESIA
Poesia é a gota que
cai
da consciência trans
bordante.
DRUMMONDIANDO
É sempre no meu sexo
aquele incesto
Sempre no meu gim
aquele fim
Sempre no meu muro
aquele orgulho
Sempre no meu sempre
aquele nunca.
(Alexandre de Melo Andrade)
quinta-feira, 30 de julho de 2009
O SOL EXISTE
sábado, 4 de julho de 2009

A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei - não do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo. (1983, p. 10-11)
Nada há mais na vida do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer outra vez. (p. 43)
A evidência da vida não é a imediata realidade mas o que a transcende e estremece na memória. (p. 117)
O reino da vida está cheio ainda do rasto dos deuses, como num país velho perdura a memória dos senhores antigos e expulsos. Mas o homem nasceu - nasceu agora da sua própria miséria e eu sonho com o dia em que a vida fique cheia do seu rasto de homem, tão certo e evidente e tranquilo como a luz da tarde de um dia quente de Junho... (p. 181)
Mas o que sei é que o homem deve construir o seu reino, achar o seu lugar na verdade da vida, da terra, dos astros, o que sei é que a morte não deve ter razão contra a vida nem os deuses voltar a tê-la contra os homens, o que sei é que esta evidência inicial nos espera no fim de todas as conquistas para que o ciclo se feche - o ciclo, a viagem mais perfeita. (p. 247)
[...] a vida do homem é cada instante - eternidade onde tudo se reabsorve, que não cresce nem envelhece -, centro de irradiação para o sem-fim de outrora e de amanhã. O tempo não passa por mim: é de mim que ele parte, sou eu sendo, vibrando. (p. 250)
